“Os escritos de Flávio Josefo são fascinantes e uma valiosa adição à biblioteca.” Esse é o ponto de vista da conceituada revista A Sentinela, edição de 15 de março de 1994 (clique aqui para ler). A mais famosa e tradicional enciclopédia do mundo ocidental, a Encyclopædia Britannica, classifica a obra de Josefo como “uma fonte primária vital para a história romana e judaica, bem como para o contexto geopolítico da era bíblica”. Já a World History Encyclopedia afirma que, sem os seus escritos, teríamos um “apagão” histórico sobre os detalhes do século I d.C. na Judeia.
Então, é com muito prazer que escrevi este post sobre uma das obras mais famosas de Josefo: A Guerra dos Judeus. Seguem abaixo meus comentários e informações sobre essa obra e o seu autor. Eu li esse livro e separei alguns fragmentos para você, leitor, saborear um pouco a leitura deste riquíssimo clássico.
O que me motivou a ler esse livro
Já tinha lido muitas citações dos escritos de Josefo em minhas pesquisas sobre a Bíblia, mas ainda não havia lido nenhum de seus livros na íntegra.
No final de 2025, porém, fiquei hospedado na casa de um amigo, em Itabuna (BA). Na estante dele encontrei dois volumes de Josefo: A Guerra dos Judeus e Antiguidades Judaicas. Resolvi folheá-los e gostei muito do que vi. Esse primeiro contato com a obra foi o empurrãozinho que faltava para me motivar a fazer a leitura completa.
Pouco tempo depois, comprei A Guerra dos Judeus em versão eletrônica e li no meu Kindle. Não me arrependi. Foi uma excelente experiência de leitura.

Informações gerais sobre o autor e a obra
O autor: Flávio Josefo
Para compreender melhor a importância do livro, vale conhecer um pouco do seu autor. José ben Matias, mais conhecido como Flávio Josefo, foi uma das figuras mais notáveis de sua época. Atuou como comandante militar, diplomata, erudito, membro da influente seita dos fariseus e, mais tarde, tornou-se um escritor de grande destaque.
Como testemunhou boa parte dos acontecimentos que narra, muitos estudiosos consideram seus relatos, em grande medida, exatos e confiáveis.

Visão geral do livro
A narrativa de Josefo lembra uma grande reportagem de guerra escrita por alguém que presenciou muitos dos acontecimentos.
A obra começa no século II a.C., com a conquista de Jerusalém por Antíoco Epifânio, e acompanha diversos episódios da história judaica até culminar na destruição de Jerusalém, em 70 d.C., e na queda da fortaleza de Massada, em 73 d.C.
Com cerca de 550 páginas em sua edição completa, A Guerra dos Judeus descreve o conflito devastador entre a Judeia e o Império Romano. Logo no início, apresenta os bastidores políticos da dinastia dos Herodes — família que ocupa lugar de destaque no relato bíblico —, revelando suas intrigas, disputas e crueldades.
Entretanto, para mim, o maior valor da obra está em mostrar evidências históricas que atestam a confiabilidade da profecia registrada no livro bíblico de Lucas 21:20-22. Ao narrar o cerco de Jerusalém pelas tropas de Céstio Galo, seu inesperado recuo em 66 d.C. e o posterior retorno dos romanos, Josefo fornece um importante pano de fundo histórico para entendermos o cumprimento das palavras de Jesus.
Esse recuo inesperado deu aos cristãos atentos à advertência de Cristo a oportunidade de fugir imediatamente para as montanhas, escapando da terrível destruição que mais tarde atingiria Jerusalém.

Como encarar esse livro
A Guerra dos Judeus não faz parte da Bíblia; trata-se apenas de uma obra de valor histórico amplamente reconhecido pelos estudiosos. Como qualquer obra histórica, deve ser lida com senso crítico. Para quem aprecia a Bíblia, porém, Josefo oferece um complemento precioso, ajudando a compreender melhor o contexto político, religioso e militar em que viveram Jesus e os primeiros cristãos. Foi exatamente essa a impressão que tive durante a leitura: em muitos momentos, seus relatos lançaram uma luz interessante sobre o panorama histórico relacionado aos Evangelhos, tornando ainda mais vivo o cenário em que elas aconteceram.
Por que gostei do livro
Achei a leitura enriquecedora e envolvente. Embora seja uma obra antiga, a edição que li apresenta uma linguagem bastante acessível. Um leitor comum consegue acompanhar o texto sem grandes dificuldades.
As descrições das guerras, das paixões humanas, da fome e do desespero são tão vívidas que prenderam minha atenção do início ao fim.
Josefo escreve com dinamismo e riqueza de detalhes. Em muitos momentos, tive a sensação de estar acompanhando os acontecimentos de perto. A obra ajuda a compreender tanto o enorme poder militar de Roma quanto o fanatismo de parte dos judeus, que preferiram enfrentar um exército praticamente invencível, contribuindo para a tragédia que se seguiu.
Para mim, que já havia lido os Evangelhos, a experiência foi ainda mais enriquecedora. O livro ampliou minha compreensão do contexto histórico do Novo Testamento. É praticamente impossível ler Josefo sem recordar as palavras de Jesus profetizando que Jerusalém e seu magnífico templo seriam destruídos.
Também achei importante conhecer melhor a dinastia dos Herodes. Membros dessa família aparecem nos relatos bíblicos: por exemplo, um Herodes tentou matar o menino Jesus; outro ordenou a execução de João Batista. Josefo descreve em detalhes a paranoia, a crueldade e as disputas internas desse clã, mostrando um quadro que combina muito com o retrato apresentado pelos Evangelhos.
Recomendo, portanto, a leitura dessa obra. Como destacou a revista A Sentinela, trata-se de uma crônica fascinante e uma valiosa aquisição para qualquer biblioteca.

Trechos do livro para saborear
Separei abaixo alguns dos fragmentos mais marcantes do livro, organizados por temas, para que você possa sentir o tom da escrita de Josefo.
1. O contexto histórico da época
Trechos que destacam o poderio militar de Roma, a organização de seu exército e as intrigas políticas (envolvendo figuras como César, Cleópatra, Antônio e Herodes que serviram de pano de fundo para a guerra.
Nessa época, uma grande guerra eclodiu entre os romanos devido ao súbito e traiçoeiro assassinato de César por Cássio e Bruto. […] Esse assassinato causou grande agitação, e os principais homens estavam profundamente divididos, cada um unindo-se à facção que mais lhe prometesse avançar.
Pois Antônio estava agora enfeitiçado por seu amor por Cleópatra, completamente dominado por seus encantos. Ora, Cleópatra já havia matado todos os seus parentes, até que ninguém de seu sangue permanecesse vivo, e depois passara a eliminar aqueles que não tinham parentesco com ela. […]; mais ainda, estendeu sua cobiça aos judeus e árabes, e secretamente conspirou para que Herodes e Malico, os reis de ambas as nações, fossem mortos por ordem dele.
Por isso, tanto César quanto seus soldados consideravam que o reino de Herodes era pequeno demais para a generosidade com que os presenteava. Assim, quando César chegou ao Egito e Cleópatra e Antônio já estavam mortos, não apenas lhe concedeu outras honrarias, como também ampliou seu reino.
Quando alguém era apenas suspeito [de traição], Herodes o matava, de modo que o palácio estava cheio de procedimentos horrivelmente injustos; pois todos forjavam calúnias, movidos por inimizade ou ódio contra outros;
Depois disso, a doença apoderou-se de todo o [corpo de Herodes], perturbando gravemente todas as suas partes com vários sintomas: tinha febre ligeira, comichão intolerável por toda a superfície do corpo, dores contínuas no cólon, tumores hidrópicos nos pés, inflamação do abdómen e putrefação de seu membro privado, que produzia vermes.
Quanto à sorte de Herodes, foi próspera em todos os outros aspetos — se é que algum homem alguma vez o pode verdadeiramente ser —, pois, de um simples particular, ascendeu ao poder, manteve-se nele durante muito tempo e legou-o aos seus filhos. No entanto, nos assuntos domésticos, foi um homem profundamente infeliz.
Sois o único povo que considera uma desgraça servir aqueles a quem todo o mundo se submete. Não reflectis cuidadosamente sobre o império romano? Não ponderais a vossa própria fraqueza? Não foi o vosso exército frequentemente derrotado mesmo por nações vizinhas, enquanto o poder dos romanos é invencível em toda a terra habitável?
O que Céstio fez contra os judeus; e como, ao sitiar Jerusalém, ele se retirou da cidade sem qualquer justa causa no mundo. Assim como também quais severas calamidades ele sofreu dos judeus em sua retirada.
Aconteceu então que Céstio não percebeu nem o desespero dos sitiados nem a coragem do povo a seu favor; assim, recallou seus soldados e, desesperando de tomar a cidade sem sofrer qualquer desgraça, retirou-se sem qualquer razão aparente. Quando os ladrões perceberam essa retirada inesperada, retomaram a coragem perseguiram a retaguarda de seu exército, destruindo um número considerável de cavaleiros e infantes.

2. Divisões Internas e Degradação Moral
Trechos sobre A violência interna e a guerra civil que devastou os judeus durante a invasão romana.
Há três seitas filosóficas entre os judeus. Os seguidores da primeira são os fariseus; os da segunda, os saduceus; e a terceira seita, que se distingue por uma disciplina mais severa, são chamados essênios.
E, juntando-se a muitos sicários — ladrões que escondiam sob as roupas punhais chamados sicas — que se misturavam ao povo comum, tornaram-se mais ousados e levaram seu intento ainda mais longe, a ponto de os soldados do rei serem superados em número e audácia.
Para mais, havia distúrbios e guerras civis em cada cidade; e todos os que estavam em paz com os romanos voltaram-se uns contra os outros. Travava-se também um conflito amargo entre os partidários da guerra e os que desejavam a paz.
Os idosos e as mulheres estavam em tal angústia por suas calamidades internas, que desejavam os romanos e esperavam ardentemente por uma guerra externa, para se libertarem de suas misérias domésticas.
É, pois, impossível descrever distintamente cada caso de iniquidade desses homens. Direi, portanto, minha opinião de uma vez, brevemente: nenhuma outra cidade jamais sofreu males tão grandes, nem nenhuma época jamais gerou uma geração mais fértil em maldade do que esta, desde o princípio do mundo.
3. O Horror do Cerco: Fome, Desespero e a Perda da Humanidade
Aqui estão alguns dos trechos mais brutais do livro, ilustrando as terríveis consequências do cerco de Jerusalém.
Era então comum ver cidades cheias de cadáveres, ainda deitados insepultos, os de homens velhos misturados com bebés, todos mortos e espalhados juntos; mulheres também jaziam entre eles, sem qualquer cobertura para a sua nudez.
A fome, porém, sobrepujava todas as outras paixões e nada destruía tanto quanto a modéstia; o que antes era digno de reverência agora era desprezado. As crianças arrancavam das bocas dos próprios pais os bocados que estavam comendo, e, mais lastimável ainda, as mães faziam o mesmo com seus bebês.
Algumas pessoas foram levadas a uma situação tão terrível que revistavam os esgotos comuns e os antigos estrumeiros de gado, comendo o esterco que ali encontravam; e o que outrora não podiam suportar nem sequer ver, agora usavam como alimento.
Mal proferiu tais palavras, matou o próprio filho, assou-o e comeu uma metade, guardando a outra metade escondida.
E agora, como a cidade estava engajada em uma guerra por todos os lados, por causa dessas multidões traiçoeiras de homens ímpios, o povo da cidade, no meio deles, era como um grande corpo despedaçado. Os idosos e as mulheres estavam em tal angústia por suas calamidades internas, que desejavam os romanos e esperavam ardentemente por uma guerra externa, para se libertarem de suas misérias domésticas.
4. A Destruição de Jerusalém e do Templo
Trechos sobre o fogo, o massacre desenfreado, a desolação da paisagem que outrora era bela e o destino final das muralhas e redutos (como Massada).
E então sobreveio um quarto infortúnio, para levar a nossa nação à ruína. Havia uma fortaleza de grande resistência não muito longe de Jerusalém, construída pelos nossos antigos reis, tanto para servir de depósito dos seus bens em tempos de guerra como para assegurar a própria preservação. Chamava-se Massada.
E verdadeiramente a própria vista do país era uma coisa melancólica; pois aqueles lugares que antes eram adornados com árvores e jardins agradáveis estavam agora tornados um país desolado por todos os lados, e as suas árvores estavam todas cortadas. A guerra tinha arrasado todos os sinais de beleza.
Então ordenou aos soldados que incendiassem e saqueassem a cidade — o que, de fato, não fizeram naquele dia; mas no dia seguinte, atearam fogo ao depósito de arquivos, a Acra, ao conselho e ao lugar chamado Oflas.
Quanto ao resto da muralha, foi de tal modo arrasado, escavado até aos alicerces, que dela nada restou que pudesse fazer crer aos visitantes que alguma vez fora habitada. Este foi o fim que Jerusalém sofreu por causa da loucura dos partidários de inovações; uma cidade outrora de grande magnificência e de fama imensa entre toda a humanidade.
5. Reflexões finais de Josefo
Por fim, estes trechos reúnem a voz autoral e teológica de Josefo, refletindo sobre o papel de Deus na destruição, a cegueira obstinada do povo e as oportunidades perdidas de arrependimento.
Não posso deixar de pensar que foi porque Deus tinha condenado esta cidade à destruição, como uma cidade poluída.
No entanto, ainda há lugar para a vossa preservação, se estiverdes dispostos a aceitá-la; e Deus é facilmente reconciliado com aqueles que confessam as suas faltas e delas se arrependem. Ó duros de coração! Deitai fora todas as vossas armas, e tende piedade do vosso país já a caminho da ruína; Ó criaturas insensatas, e mais estúpidas do que as próprias pedras!
Ora, quem considerar estas coisas descobrirá que Deus cuida da humanidade e de todos os modos anuncia ao nosso gênero o que é para sua preservação; mas os homens perecem pelas misérias que insana e voluntariamente atraem sobre si mesmos.
Teria sido mais sensato percebermos desde o início o desígnio de Deus: deveríamos ter compreendido que o mesmo Deus que outrora protegeu a nação judaica, agora a condenara à destruição. Se Ele nos fosse favorável, ou mesmo apenas menos descontente, não teria permitido a morte de tantos homens, nem entregue a sua cidade mais sagrada para ser queimada e destruída.
