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Resenha: Por que ler a HQ Primavera em Chernobyl

Neste post, vou falar da história em quadrinhos Primavera em Chernobyl. Antes de comentar sobre essa obra, quero explicar como eu a descobri.

Li no jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) uma interessante notícia com o título Natureza faz um reset em Chernobyl. Em resumo, a matéria destaca a impressionante recuperação da natureza na chamada “zona de exclusão”, ou seja, uma área devastada pelo maior desastre radioativo da história. Esse evento traumático ocorreu no dia 26 de abril de 1986, portanto,há mais de quarenta anos. Por conta desse desastre, os cientistas estimam que essa área ainda deve permanecer sem ocupação humana em larga escala por milhares de anos.

Clique na imagem para ler a notícia no Estadão.

Mas, sem a presença humana, a natureza nas imediações da usina vem apresentando uma recuperação incrível! O local voltou a ter muita vegetação e animais selvagens, como ursos, lobos, cavalos selvagens, aves, dentre outros. A notícia destacou justamente como a vida está se recuperando naquela região e como a natureza voltou a exibir beleza, apesar do alto índice de radiação ainda presente no local.

Inspirado por essa notícia, resolvi pesquisar um pouco mais sobre a incrível recuperação da natureza em um lugar de história tão sombria. Descobri então a história em quadrinhos Primavera em Chernobyl.

A recuperação da natureza na temida “zona de exclusão” é realmente incrível!

SOBRE A HQ

A obra é do francês Emmanuel Lepage, um dos nomes mais respeitados dos quadrinhos franceses da atualidade. Em 2008, 22 anos após o desastre nuclear, Lepage integrou um grupo de artistas cujo objetivo era registrar como estava a situação naquele momento na chamada “Zona de Exclusão”.

Em resumo, a HQ fala dos dramas e conflitos pessoais que antecederam a viagem, de como estavam as poucas pessoas que ainda habitavam a região e de como se encontrava a situação ambiental naquela localidade.

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Acho que o ponto alto da história é justamente a quebra de expectativa da equipe. A expectativa era encontrar um ambiente sombrio, marcado pela morte e por lembranças dolorosas. Mas o que se viu foi a vida em sua plenitude: a natureza exibindo muita beleza, ainda mais por causa da reduzida presença humana, e as pessoas da comunidade demonstrando alegria de viver. Ou seja, a “zona morta”, na verdade, estava vibrante e cheia de vida durante a primavera.

A HQ mostra a vida renascendo em um lugar marcado pela morte!

A HQ é muito elogiada pela crítica especializada e pelo público. A obra é considerada uma das melhores HQs de não ficção do século XXI e recebeu diversos prêmios pelo mundo.

POR QUE EU GOSTEI DA HQ

Gostei, principalmente, por mostrar como a natureza é incrível e perfeitamente projetada. Ela foi devastada por um desastre nuclear de grandes proporções. Mas bastou deixar a natureza em paz, sem ser novamente agredida pelo ser humano, para que a vegetação e a vida animal retornassem com força. É realmente impressionante como aquele lugar fica cada vez mais bonito com o passar do tempo.

Gostei também por ser uma obra sensível, que dá voz e rosto às pessoas cujas vidas foram severamente afetadas pelo desastre. É, de fato, uma obra comovente.

Também achei muito interessantes as técnicas usadas pelo artista Emmanuel Lepage, especialmente no uso das cores. A obra começa com quadrinhos em tons de cinza, preto e branco. Essas cores refletem o medo e o preconceito que o autor tinha em relação ao lugar. Mas, à medida que ele vai conhecendo melhor as pessoas da região e a paisagem local, o colorido invade os quadrinhos, mostrando o encantamento do autor com aquele ambiente e com os moradores dali.

A obra começa com tons de cinza, preto e branco…

depois as cores invadem a história!

A linguagem da obra é naturalmente mais simples, por se tratar de uma HQ, mas há trechos com reflexões bastante profundas sobre medos, esperanças, desafios, dentre outros aspectos.

Assim, recomendo a leitura dessa belíssima obra. Ela nos ajuda a desenvolver mais empatia e a compreender melhor o impacto humano e ambiental do pior desastre nuclear da história. E nos motiva a valorizar mais a natureza, que foi projetada para exibir uma beleza exuberante e demonstrar uma incrível capacidade de recuperação.

TRECHOS DA OBRA PARA SABOREAR

A tragédia

Sábado, o núcleo do reator começou a derreter. O sistema de refrigeração se espalhou todo na atmosfera, levando a contaminação até centenas de quilômetos dali”

Consequências imediatas da tragédia

“O que está aí na sua frente não é mais o seu marido, mas um objeto radioativo”

Os liquidadores

“Eu me lembro daquelas imagens desfocadas de homens correndo pelos telhados da usina e jogando resíduos altamente radioativos por uma abertura de vidro. Durante dois minutos apenas, para não serem atingidos por uma radiação mortal. Eles serão chamados de “liquidadores”.

A beleza e a vida , em vez da morte

“E agora? O belo? Como assim, o belo”

“Estou aqui para revelar o horror, e meus desenhos são todos coloridos […]. Como poderia imaginar que iria viver momentos assim em Thcernóbil, no coração do desastre, se vim aqui para desenhar o horror? Tenho a sensação de viver plenamente, intensamente… aqui e agora.

“Nos mandaram aqui para representar um desastre, e vamos voltar com desenhos de paisagens, de animias, de crianças?”

“Uma terra, nesses dias de primavera, de uma beleza radiante, e que poderia até parecer um paraíso.”