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Holocausto Brasileiro: Resenha do Livro de Daniela Arbex

A palavra “holocausto” faz lembrar as atrocidades praticadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Poucos sabem, porém, que algo semelhante ao que acontecia nos campos de concentração nazistas também aconteceu no Brasil durante boa parte do século XX.

Em Holocausto Brasileiro, a jornalista Daniela Arbex conta a história do Hospital Psiquiátrico Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. O local foi palco de uma tragédia em que milhares de pessoas foram internadas, humilhadas, torturadas e morreram em condições desumanas. E, ainda mais absurdo: a maioria dos que lá foram internados não tinha nenhum transtorno mental.

Mais do que um livro sobre um hospital psiquiátrico, trata-se de uma obra sobre preconceito, exclusão social, abuso de poder e indiferença. É uma leitura difícil em vários momentos, mas importante para compreender uma parte triste da história do Brasil.

O livro está disponível, por exemplo, na Amazon. Clique na imagem.

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO

Autora

A autora, Daniela Arbex, é jornalista investigativa e repórter premiada. Ao longo da carreira, recebeu diversos prêmios de jornalismo e tornou-se uma das principais referências brasileiras em reportagem investigativa.

Publicação

Holocausto Brasileiro foi lançado em 2013 e ganhou grande repercussão nacional. A obra nasceu a partir de anos de pesquisa documental, entrevistas com sobreviventes, familiares, funcionários e especialistas, além da análise de fotografias e registros históricos.

Conheça a autora Daniela Arbex neste vídeo curto do YouTube.
Sobre o que fala o livro?

O livro conta a história do Hospital Colônia de Barbacena, considerado durante décadas o maior hospício do Brasil.

Segundo as investigações apresentadas por Daniela Arbex, cerca de 60 mil pessoas morreram na instituição ao longo de cinco décadas (de 1930 a 1980). Ressaltamos novamente que grande parte dos internados não possuía qualquer diagnóstico de transtorno mental. Mulheres grávidas fora do casamento, alcoólatras, pessoas pobres, órfãos, entre outros, eram internados no hospício simplesmente porque se tornaram inconvenientes para alguém que tinha o poder nas mãos.

Ao longo da narrativa, a autora reconstrói a trajetória dessas vítimas e mostra como o sistema foi sustentado por décadas com a participação ou a omissão de diversos setores da sociedade.

Como eu conheci o livro

Eu não conhecia Holocausto Brasileiro. Em uma das minhas aulas de Literatura do ano passado, um aluno do ensino médio comentou sobre o livro com tanto entusiasmo que despertou minha curiosidade.

Depois da leitura, compreendi perfeitamente o motivo. Considero essa uma leitura importante não apenas para estudantes, mas para qualquer pessoa interessada em compreender melhor a sociedade em que vivemos. Por isso, resolvi utilizar o livro em sala de aula e também recomendá-lo aqui no Sabores Literários.

Assista a uma análise do livro feita pela professora Tatiana Feltrin.
Repercussão

O livro teve enorme impacto desde seu lançamento. Tornou-se leitura frequente em cursos de Psicologia, Jornalismo, Medicina, Sociologia, Filosofia e Direito, além de ser adotado por muitas escolas.

POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO

Gostei da seriedade da pesquisa apresentada no livro. A autora não se limita a falar de números e documentos. Ela dá voz às vítimas e permite que o leitor enxergue os acontecimentos por meio das histórias de pessoas reais.

Gostei também da sensibilidade com que temas extremamente delicados são abordados. O livro denuncia as atrocidades cometidas sem transformar o sofrimento humano em espetáculo.

A leitura também estimula a empatia. O livro nos motiva a prestar mais atenção àqueles que a sociedade considera diferentes, inconvenientes ou vulneráveis.

Além disso, embora trate de fatos históricos, o livro discute também questões atuais. Daniela Arbex mostra que muitos desafios relacionados ao tratamento dos transtornos mentais ainda não foram superados. Estudos indicam avanços com a criação de políticas públicas, dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e de outras iniciativas voltadas para um atendimento mais humano. Mas o livro defende a tese de que a situação ainda está longe do ideal.

Holocausto Brasileiro, portanto, é um daqueles livros que informam, emocionam e permanecem na memória muito tempo depois da última página.

Mais uma dica de leitura: recomendo também o clássico da literatura O Alienista, de Machado de Assis. Em pleno século XIX, quando os hospícios eram considerados a melhor forma de tratamento da “loucura”, Machado criou uma história engraçada, mas ao mesmo tempo irônica e cheia de crítica social. O protagonista é Simão Bacamarte, um médico alienista (psiquiatra) que, usando critérios absurdos e cometendo abusos de poder, interna quase uma cidade inteira na Casa Verde (um hospício). Vale a pena ler! (Clique aqui para ler o post do Sabores Literários sobre esse ótimo livro.)

TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR

A desumanização dos internos

O que acontece no Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente.

Pessoas internadas sem estarem doentes

Desde o início do século XX, a falta de critério médico para as internações era rotina no lugar onde se padronizava tudo, inclusive os diagnósticos. Maria de Jesus, brasileira de apenas vinte e três anos, teve o Colônia como destino, em 1911, porque apresentava tristeza como sintoma. Assim como ela, a estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental.

Sessenta mil mortes esquecidas

Sessenta mil pessoas perderam a vida no Colônia. As cinco décadas mais dramáticas do país fazem parte do período em que a loucura dos chamados normais dizimou, pelo menos, duas gerações de inocentes em 18.250 dias de horror. Restam hoje menos de 200 sobreviventes dessa tragédia silenciosa.

O “trem de doido”

Os deserdados sociais chegavam a Barbacena de vários cantos do Brasil. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra Mundial, para os campos de concentração nazistas de Auschwitz. A expressão ‘trem de doido’ surgiu ali. Criada pelo escritor Guimarães Rosa, ela foi incorporada ao vocabulário dos mineiros para definir algo positivo, mas, à época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno.”

Quando a pessoa perdia até o próprio nome

As que não podiam pagar pela internação, mais de 80%, eram consideradas indigentes. Nesta condição, viam-se despidas do passado, às vezes, até mesmo da própria identidade. Sem documentos, muitas pacientes do Colônia eram rebatizadas pelos funcionários. Perdiam o nome de nascimento, sua história original e sua referência.

Algumas histórias e relatos de pessoas reais

Em 2011, Sônia realizou sua maior ousadia. Para quem passou cinquenta anos presa nos porões da loucura, conhecer Porto Seguro, na Bahia, foi uma dádiva na vida dessa mulher.

Eu não sabia que a universidade comprava corpos. Isso me parece crime. Como ela contabiliza tais gastos? Duvido que haja uma conta para “compra de defuntos”

O crime de Roberto foi ter nascido com hidrocefalia, problema que provoca inchaço no crânio, mas que tem tratamento. Possuía traços bonitos, mas não atendia aos padrões sociais, experimentando a exclusão. Com doze irmãos, tinha uma mãe carinhosa; entretanto, por ser diferente dos outros, a família decidiu que Roberto não poderia ficar entre eles.

Alegando estar faminta, ela pegou uma pomba no pátio, estraçalhou e comeu na frente de todos, dizendo que era seu único alimento. A cena chocante foi vista por centenas de pessoas, inclusive pelos atendentes, mas ninguém conseguiu enxergar o óbvio: em que a jovem paciente havia se transformado em uma década de internação. Tratada como bicho, ela comportava-se como um.

O exílio no hospital foi a forma que o patrão de Virginópolis (MG) encontrou de silenciar a menina que ele havia estuprado no período em que ela trabalhava em sua casa.

Geralda Siqueira Santiago, mãe de João Bosco, foi estuprada aos catorze anos e levada para o Colônia grávida. Depois de dar à luz o menino, eles foram separados. Só se reencontraram em 2011.

O olhar sobre a saúde mental no Brasil

Segundo o Ministério da Saúde, 12% da população necessita de algum atendimento em saúde mental, sendo ele contínuo ou eventual, representando um contingente de 22 milhões de pessoas.

Desafios que ainda existem

E apesar dos equívocos e acertos na construção de um novo paradigma para a saúde pública, a loucura ainda é usada como justificativa para a manutenção da violência e da medicalização da vida.

Uma reflexão que continua atual

Os campos de concentração vão além de Barbacena. Estão de volta nos hospitais públicos lotados que continuam a funcionar precariamente em muitas outras cidades brasileiras. Multiplicam-se nas prisões, nos centros de socioeducação para adolescentes em conflito com a lei, nas comunidades à mercê do tráfico.

A importância da literatura

Holocausto brasileiro se mostrou um divisor de águas na minha carreira. Desde o lançamento, em 2013, o livro foi adotado por quase todas as faculdades de psicologia, jornalismo, medicina, sociologia, direito e filosofia no país, além de diversas escolas de ensino fundamental e médio. 

Afinal, a literatura é um dos caminhos para o reencontro com nossa humanidade.