Eu realmente gostei muito do livro Crime e Castigo. Concordo com a opinião geral de que essa obra é um verdadeiro monumento literário. O livro tem ação, drama e, principalmente, mergulha profundamente na natureza humana, que é tão complexa. São mais de 700 páginas, a depender da edição, mas, sem dúvida alguma, vale a pena saborear cada uma delas.
A seguir, dou informações gerais e falo mais sobre a minha opinião a respeito do livro. E, como de costume aqui no Sabores, coloco trechos dessa grande obra para saborear.

SOBRE O LIVRO
O livro Crime e Castigo foi escrito em 1866 pelo russo Fiódor Dostoiévski. Essa obra poderia até ser classificada como um romance policial, mas é muito mais que isso, com certeza! O livro apresenta, principalmente, profundas reflexões sobre questões éticas, morais e psicológicas. Costuma ser vinculado ao movimento literário conhecido como Realismo.
Falando um pouco agora do enredo: como o título da obra sugere, aconteceu um crime. Qual foi o crime? O assassinato de duas pessoas, a golpes de machado, sendo uma delas uma idosa agiota. A outra, irmã da vítima, foi morta simplesmente porque chegou à cena do crime na hora errada, ou seja, no momento da execução, e foi eliminada para não servir de testemunha.
E, naturalmente, depois do crime, veio o castigo. E que castigo! Toda a trama se desenvolve em torno desse castigo. O castigo principal não tem a ver com prisão, vingança ou coisas do tipo. Ele está relacionado a um intenso sofrimento psicológico, com consequências físicas, inclusive. Esse sofrimento tem ligação com a sensação de culpa que afetou o autor dos assassinatos.
O protagonista é Rodion Raskólnikov. Ele é o assassino. O que o levou a cometer o crime? Bem, Rodion, um estudante universitário, lia muito e, muitas vezes, ficava profundamente absorto em pensamentos filosóficos. De tanto pensar, ele desenvolveu uma teoria perigosa: a de que certos homens seriam extraordinários e, por serem extraordinários, teriam o direito de desobedecer à lei e à moral, caso essa transgressão tivesse o potencial de causar um bem maior.
Para testar sua teoria, ele resolveu então matar uma velha agiota, conhecida por sua extrema ganância. Ele considerava essa idosa um “piolho” para a sociedade. Na sua visão, a morte dela traria benefícios para todos.
Mas o resultado dessa ação, destacado no livro, foi um grande adoecimento mental e uma intensa paranoia, provocados pelo remorso.
POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO
O livro nos ensina lições valiosas. Por exemplo, é muito importante evitar a chamada arrogância intelectual. Ninguém deveria ultrapassar limites éticos e morais. O nosso intelecto deve estar ancorado no amor, na ética e na empatia; caso contrário, pode acabar justificando as piores atrocidades.
É importante reconhecer que a mente humana é capaz de criar justificativas sofisticadas — até aparentemente brilhantes — para ações terríveis. Nenhum ser humano deveria se achar extraordinário a ponto de se considerar no direito de violar leis que visam preservar a vida e a dignidade humana.
Devemos resistir à ideia de que existem seres humanos superiores, que estariam além do bem e do mal e que teriam o direito de fazer qualquer coisa que lhes desse na cabeça. Trata-se de uma ilusão perigosa, que tem gerado consequências sérias, como se observa em muitas situações ao longo da história.
Outras lições valiosas também aparecem na obra, como a importância de verdadeiros amigos, a necessidade de estarmos em paz com a nossa consciência, o perigo do isolamento e de nos perdermos em nossos próprios pensamentos, afastando-nos do convívio social, entre outras.
Achei interessante também a forma como o livro mergulha profundamente em questões psicológicas. É, de fato, uma leitura densa, profunda, com diálogos riquíssimos de conteúdo, e que nos leva a fazer várias reflexões ao longo da leitura.
Além de tudo isso, é uma leitura dinâmica, cheia de suspense, ação, reviravoltas e investigação policial, elementos que tornam a experiência bastante cativante.
E a linguagem do livro não é complexa demais. Trata-se de uma obra do século XIX, escrita por um dos autores russos mais reconhecidos do mundo, mas, ainda assim, com uma linguagem acessível, apesar do conteúdo denso e profundo.
Por todos esses motivos, recomendo a leitura desse livro, que, sem dúvida alguma, representa o melhor da literatura russa.
TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR
🕊️SOFRIMENTO, CULPA E EXPIAÇÃO
“Também é para isso que eu bebo, eu procuro a compaixão e o sentimento na bebida. Não é a alegria que eu procuro, é só a mágoa… Bebo porque só quero sofrer!”
“Assumir e expiar o sofrimento, isso é que é preciso.”
“De repente, recordou as palavras de Sônia: ‘Vá a uma encruzilhada, se abaixe e faça reverências para o povo, beije a terra, porque você pecou contra ela, e fale alto para todo mundo: Eu sou um assassino!’. Começou a tremer todo, ao recordar aquilo. […]. A sensação o atingiu de repente, como uma espécie de ataque: ardeu como uma fagulha dentro do peito e, de súbito, como fogo, tomou conta de tudo. Dentro dele, de um só golpe, tudo se abrandou e as lágrimas se derramaram. Ali onde estava, caiu no chão…”
“De fato, o resultado é sórdido, mas o senhor, apesar de tudo, não é um patife irrecuperável. Não é de maneira nenhuma! Pelo menos, não ficou muito tempo por aí fazendo besteiras, foi direto ao fundo do poço.”
🧩 CONFLITOS PSICOLÓGICOS E VIDA INTERIOR
“O que eu mais gostava de fazer era ficar deitado e pensar. E pensava sem parar…”
⚖️ MORAL, JUSTIFICATIVAS E IDEIAS PERIGOSAS
“Pois bem… aí eu decidi tomar posse do dinheiro da velhota, empregá-lo nos meus primeiros anos, sem atormentar minha mãe, para me manter na universidade e me ajudar nos primeiros passos depois da universidade… […] Pois bem… pois bem, aí está, é tudo… Então, claro, eu matei a velha… eu fiz uma coisa ruim… mas agora chega!”
“Não há no mundo nada mais difícil do que a sinceridade e nada mais fácil do que a lisonja. Na sinceridade, se só a centésima parte da melodia for falsa, logo soará uma dissonância e, em seguida, um escândalo. Na lisonja, porém, tudo é falso, até a última nota, e por isso ela é agradável e não a ouvimos sem prazer”
💰 CRÍTICA SOCIAL E DESIGUALDADE
“E passou a contar como era perversa, rabugenta, e que bastava atrasar um dia o pagamento para vender os bens da pessoa. Dava quatro vezes menos do que valia o objeto, cobrava juros de cinco e até de sete por cento ao mês etc.”
“Piotr Petróvitch, que subiu na vida a partir do nada, estava morbidamente acostumado a adorar a si mesmo, […] . Porém, o que mais prezava e adorava no mundo era seu dinheiro, obtido com o trabalho e também com quaisquer meios; o dinheiro o igualava a tudo o que estava acima dele.”
🏙️ AMBIENTE URBANO E DEGRADAÇÃO
“O verdor e o frescor, de início, agradaram aos olhos cansados de Raskólnikov, acostumados à poeira da cidade, à cal, aos prédios enormes, que pressionam, comprimem”
👥 NATUREZA HUMANA E COMPORTAMENTO SOCIAL
“Os inquilinos, um após o outro, se empurraram para voltar pela porta, com a estranha sensação de satisfação interior que sempre se manifesta, mesmo nas pessoas mais íntimas, diante da desgraça repentina de alguém próximo, sensação da qual ninguém está livre, sem exceções, a despeito até do mais sincero sentimento de pesar e de solidariedade.”
🔎 PERSONAGENS E VALORES HUMANOS
“Apesar de Pulkhéria Aleksándrovna já ter quarenta e três anos, seu rosto ainda preservava sinais da antiga beleza e, além disso, ela parecia muito mais jovem do que era, o que quase sempre ocorre com mulheres que conservam, até a velhice, a lucidez do espírito, o frescor das sensações e o ardor honesto e puro do coração. Entre parênteses, digamos que preservar tudo isso é o único meio de não perder a própria beleza, mesmo na velhice”
“Pulkhéria Aleksándrovna era emotiva, mas sem chegar a ser sentimental, era tímida e complacente, mas só até determinado limite: ela cedia em muita coisa, podia aceitar muita coisa, mesmo que contrariasse sua convicção, mas havia sempre um limite de integridade, de regras e de convicções fundamentais, que nenhuma circunstância era capaz de forçá-la a ultrapassar”
🤝 AMOR, COMPAIXÃO E REDENÇÃO (SÔNIA)
“Fazia tempo que o toco de vela vinha se apagando no castiçal torto, iluminando palidamente o assassino e a prostituta, estranhamente reunidos nesse quarto miserável, durante a leitura do livro eterno.”
“Daquele encontro, Dúnia obteve pelo menos um consolo: o irmão não ia ficar sozinho; foi ela, Sônia, quem Raskólnikov procurou primeiro para fazer sua confissão; em Sônia, ele encontrou um ser humano, quando precisou de um ser humano;”
“Raskólnikov, naquele momento, sentiu e entendeu, de uma vez por todas, que Sônia estava a seu lado para sempre e iria atrás dele até o fim do mundo, para onde o destino o mandasse. Seu coração se contraiu todo… mas, quando viu, já havia chegado ao lugar fatal…”
📘 FÉ E TRANSFORMAÇÃO
“Embaixo do seu travesseiro, estava o Evangelho. O livro pertencia a Sônia, era o mesmo em que tinha lido para ele a passagem sobre a ressurreição de Lázaro. No início dos trabalhos forçados, Raskólnikov achava que ela ia aborrecê-lo com a religião, ia ficar falando sobre o Evangelho e empurrar livros para ele. Porém, para sua enorme surpresa, Sônia não falava disso nunca, nem uma vez lhe propôs ler o Evangelho. Foi ele mesmo quem pediu o livro para Sônia, pouco depois de ficar doente, e ela trouxe o livro sem dizer nada. Até aquele momento, Raskólnikov não tinha aberto o volume”
