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Passarinha: um livro sobre o autismo e a empatia

É com satisfação que comento aqui no Sabores Literários sobre o excelente livro Passarinha, um livro que aborda com muita sensibilidade a inclusão de pessoas com deficiência.

A protagonista, uma garotinha de 11 anos, apresenta o que, na época, era classificado como Síndrome de Asperger — hoje compreendida como parte do Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 1.

A seguir, falo um pouco sobre o conceito de autismo e sobre essa ótima narrativa.


O que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA)

A palavra “espectro” é fundamental para entender essa condição. Ela indica que o autismo pode se manifestar de diversas formas, de acordo com as características de cada pessoa.

De modo geral, o autismo envolve desafios em duas áreas principais:

  1. Comunicação e interação social: Dificuldade em iniciar conversas, entender ironias, metáforas ou a linguagem não verbal.
  2. Padrões de comportamento: Interesses intensos (hiperfoco), muitas vezes voltados a detalhes que outros considerariam irrelevantes e necessidade de rotinas rígidas para sentir segurança.

Atualmente, o autismo é classificado por níveis de suporte. No Nível 1, popularmente chamado de “autismo leve”, o indivíduo possui um bom grau de autonomia, ou seja, é menos dependente de terceiros, e não apresenta atrasos cognitivos severos. No entanto, ele precisa lidar com grandes dificuldades de socialização — exatamente o caso de Caitlin, a protagonista do livro. 

No livro Passarinha, a protagonista apresenta esse nível, que na época era conhecido como Síndrome de Asperger.

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Como eu conheci o livro

Como já mencionei aqui no Sabores, costumo promover com meus alunos do ensino médio rodas literárias, nas quais eles comentam livros de sua escolha.

Em uma dessas rodas recentes, uma aluna falou desse livro com entusiasmo. Fiquei interessado, pesquisei e li a obra em poucos dias.


Informações gerais sobre o livro

Passarinha foi publicado pela primeira vez em 2010 e foi escrito pela norte-americana Kathryn Erskine. Essa narrativa ficcional  foi escrita em um contexto em que muitos norte-americanos estavam traumatizados por conta por causa de tiroteios em escolas. Um desses episódios, ocorrido na universidade Virginia Tech, em 2007, serviu como pano de fundo para a história.

A protagonista é Caitlin, uma menina de 11 anos com autismo nível 1. Seu irmão mais velho, Devon, morre tragicamente no tiroteio citado. Ela e seu pai precisam lidar com o luto e, ao mesmo tempo, enfrentar as dificuldades decorrentes do preconceito e da incompreensão.

A narrativa é feita em primeira pessoa, o que nos permite enxergar o mundo pelo olhar de uma criança autista. Por isso, a linguagem é simples, mas a história é profunda e comovente, abordando temas como luto, preconceito, inclusão e violência escolar.

O livro foi muito bem recebido pelo público e pela crítica, sendo bastante elogiado também por educadores.

O massacre de Virginia Tech — o maior em universidades dos EUA — serviu como pano de fundo para a história de Passarinha.

Por que eu gostei do livro

A leitura é comovente e nos ajuda a desenvolver empatia e sensibilidade.

Para quem não está familiarizado com o autismo, pode ser difícil compreender essa realidade. O livro nos permite enxergar o mundo sob outra perspectiva, o que contribui para uma visão mais humana e menos preconceituosa.

É fácil rotular alguém como estranho, mal-educado ou antissocial. Também é fácil ignorar os desafios enfrentados por quem convive com uma pessoa no espectro autista. A obra nos convida a rever essas atitudes.

A história é intensa desde o início, com a morte brutal de Devon e seus impactos na família e na comunidade. Ao mesmo tempo, o livro mostra como Caitlin, com sua sensibilidade e seus talentos, contribui para um processo de recuperação emocional de várias pessoas.

Outro aspecto que eu gostei foi a forma como a obra nos leva a olhar além das limitações e a reconhecer o potencial de cada pessoa. Caitlin apresenta dificuldades em algumas áreas, mas possui um talento surpreendente em outras. Por exemplo, ela possui um notável  talento artístico e excelente memória.

Recomendo a leitura!

O filme Como Estrelas na Terra também trata da inclusão com sensibilidade. Clique na imagem para ler o post.

TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR

A morte trágica de Devon, o irmão mais velho de Catilin, e os efeitos na sua família

Jantamos na mesa da cozinha de onde não posso ver a televisão mas também ela não está ligada mesmo. Está tudo quieto demais sem Devon.

Empurro meu corpo contra o sofá e fecho os olhos bem apertado e mesmo não querendo me lembrar eu me lembro do hospital e das luzes fortes e do barulho das sirenes e dos alto-falantes e dos bipes e do cheiro dos remédios e no fim das pessoas vestindo pijamas verdes e chinelos de papel dizendo para papai, Nós tentamos mas não conseguimos fechar o peito do seu filho. O Coração dele… não havia mais nada… não havia nada que nós pudéssemos fazer. Nada que nós pudéssemos fazer.

Gostei dessa palavra (finesse). O que quer dizer? Fazer uma coisa com tato e habilidade ao lidar com uma situação difícil. Fico surpresa por só estar aprendendo essa palavra agora. Ela é a minha cara! É o que tento fazer todos os dias para Lidar Com essa situação difícil chamada vida.

Trecho que mostra as dificuldades que muitos autistas enfrentam para entender linguagem metafórica, simbólica.

Que tal se nós todos nos reuníssemos? Para quê? Para sabermos em que pé você está. Olho para meus pés plantados lado a lado no chão da sala. Eu estou em cima dos dois pés ao mesmo tempo. Desculpe. Eu quis dizer para sabermos como você está se sentindo.

Sobre as dificuldades da protagonista com o convívio social e preconceito que sofria por causa disso

A Sra. Brook diz que as pessoas sentem muita dificuldade de me entender porque eu tenho Síndrome de Asperger [autismo nível 1] e por isso tenho que me esforçar muito mais ainda para entendê-las e isso significa trabalhar as minhas emoções.

Emma entra no meu Espaço Pessoal. Caitlin. Hum. Olha só. Você está incomodando a Mia. Você tem que parar de ficar dizendo para as pessoas deixarem ela em paz. Mas ela quer ser deixada em paz. Ela mesma disse isso. Eu só estou AJUDANDO. Emma suspira. Você não está entendendo. A Mia não quer realmente que todo mundo deixe ela em paz. Então por que ela disse isso? Acho que ela não queria magoar você. E por que isso me magoaria? Emma suspira de novo. Ela quer que VOCÊ deixe ela em paz. Só você. Por quê? Emma olha para o chão. Bom… porque… ela acha que você é… diferente.

Mas a Caitlin também teve que ser ajudada a não ter preconceito.

Além disso, digo a ela, eu NÃO SOU autista. William H. é que é autista. Caitlin, diz ela, você sabia que William joga futebol muito bem? E que sabe tocar piano? E que ele é meu amigo? Não. Eu sabia que ele tem hora com a Sra. Brook mas não que eles eram amigos. Eu gosto muito do William, diz a Sra. Brook. E não sei tocar uma nota no piano nem jogar futebol. Todos nós temos talentos diferentes… Eu sei, digo. Mas a Sra. Brook fala por cima das minhas palavras… e só porque nós somos melhores em algumas coisas do que William isso não quer dizer que sejamos melhores do que ele.

Caitlin tinha limitações, mas também tinha talentos, como todos nós.

No ano passado papai inscreveu a águia que desenhei num salão de arte para adultos e ela ganhou o primeiro prêmio. Papai e Devon ficaram tão felizes que eu até pensei que eles tinham feito confusão e achado que eles é que tinham desenhado a águia. Mas eles não fizeram confusão não porque Devon disse, Talvez você seja a melhor artista do estado, e papai também disse a mesma coisa.

Ajudas de profissionais e outros para que Catilin desenvolve mais a empatia

A Sra. Brook sempre quer que eu olhe nos olhos. Ela diz que a gente pode ver emoção nos olhos das pessoas. Eu não posso. Todos os olhos são iguais para mim.

Você pode olhar em outra direção por alguns segundos e depois voltar para os meus olhos. 

Experimento. Tente me olhar de um jeito mais relaxado para não dar a impressão de que vai pular em cima de mim quando olha nos meus olhos.

Os olhos são as janelas da alma, diz o Sr. Walters. Quando você olha dentro dos olhos de alguém pode ver muito sobre a pessoa.

Preste atenção Caitlin. Isso é importante. Se as pessoas estiverem se sentindo felizes você pode ser feliz junto com elas. Se alguém estiver se sentindo muito triste você deve ficar em silêncio com a pessoa e de repente tentar animá-la um pouco e não já chegar toda contente e falando em voz alta porque isso não combina com o sentimento da pessoa. 

Caitlin, mesmo diante de vários desafios,  aprendeu a lição sobre empatia

Tenho que resolver isso porque faz parte da empatia. Embora eu não achasse que iria gostar da empatia ela é uma coisa assim que chega sem avisar e faz você sentir um calorzinho gostoso no Coração. Acho que não quero voltar para uma vida sem empatia.

A empatia não é tão difícil quanto parece porque muitos dos sentimentos das pessoas são os mesmos. E isso ajuda a compreender os outros porque aí a gente. pode realmente se preocupar com eles de vez em quando. E ajudá-los. E ter amigos. Como Michael. E fazer alguma coisa por eles e fazer com que se sintam tão bem quanto a gente está se sentindo.

Davi de Oliveira Santana

Davi de Oliveira Santana

Meu nome é Davi Santana. Sou Testemunha de Jeová, professor e um admirador dos bons livros, filmes e músicas. No Sabores Literários, compartilho experiências de leitura e reflexões sobre obras que me marcaram, explorando livros, filmes e canções com um olhar bem pessoal. Meu objetivo é inspirar mais pessoas a descobrir o prazer da leitura e das boas histórias, sem academicismos, mas com entusiasmo e sensibilidade.