Alguns livros informam. Outros entretêm. Mas há aqueles que podem nos motivar a parar e repensar a própria vida. Em busca de sentido, de Viktor Frankl, certamente está entre eles.
📖 Como conheci o livro
Como professor de Língua Portuguesa, costumo fazer em sala de aula rodas literárias em que cada aluno tem a oportunidade de falar sobre um livro de sua escolha. Em uma dessas ocasiões, uma aluna apresentou, com muito entusiasmo, Em busca de sentido. Resolvi, então, pesquisar um pouco mais sobre a obra.
Comecei pelo site jw.org. Descobri que publicações desse site, como a revista Despertai!, citam esse autor diversas vezes. No Google e no YouTube, encontrei também muitas menções elogiosas ao livro.
Resolvi, então, ler a obra. E, após a leitura, posso dizer que, de fato, é uma obra importante e enriquecedora. Ela contém reflexões profundas, que nos ajudam a encarar com mais dignidade os dilemas e os desafios da vida.
A seguir, apresento informações gerais sobre o livro, explico por que, na minha opinião, vale muito a pena saboreá-lo e apresento alguns trechos para despertar ainda mais o interesse pela leitura.

👤 O autor e o contexto
Viktor Frankl (1905–1997) foi um psiquiatra e neurologista austríaco. O livro foi lançado originalmente em 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial.
A Europa estava em ruínas, e o mundo tentava compreender as atrocidades praticadas pelos nazistas. Frankl escreveu a primeira versão do livro em apenas nove dias. Inicialmente, queria publicá-lo de forma anônima, pois seu objetivo não era a fama, mas compartilhar uma lição sobre a sobrevivência psicológica.

🕊️ A experiência nos campos de concentração
Diferente de outros relatos históricos, Frankl observa o campo de concentração com o olhar de um psiquiatra. Ele passou por quatro campos, incluindo Auschwitz.
A obra é marcada por essa dupla perspectiva:
- O autor viveu a dor como prisioneiro (perdeu pais, irmão e a esposa grávida);
- Ele analisou a dor como cientista.
Ele percebeu que os prisioneiros com mais chances de sobreviver não eram necessariamente os mais fortes fisicamente, mas aqueles que tinham um sentido — um “porquê” — para continuar vivendo.

🧠 A Logoterapia: a terceira escola vienense
Frankl fundou a Logoterapia (do grego logos = sentido), conhecida como a “Terceira Escola Vienense de Psicoterapia”. (As outras escolas são a Psicanálise, fundada por Sigmund Freud e a Psicologia individual, fundada por Alfred Adler)
A tese central dessa escola é simples e profunda:
👉 A principal motivação humana não é o prazer nem o poder, mas a busca por sentido.
📚 Um breve resumo
O livro é dividido em duas partes:
- Primeira parte: relato do cotidiano desumanizador dos campos de concentração, sob uma ótica psiquiátrica e profundamente humana; Essa parte do livro é dura, e até em alguns momentos desconfortável. Frankl descreve como os prisioneiros eram privados de tudo: nome, identidade, dignidade. Passavam a ser apenas números. Tinham seus pertences confiscados, seus cabelos raspados e eram submetidos a uma rotina marcada por fome constante, frio intenso, trabalho exaustivo e medo permanente. E o autor comenta os efeitos psicológicos dessas circunstâncias extremas nas vítimas.
- Segunda parte: apresentação da Logoterapia.
Mensagem principal da obra:
Mesmo quando não temos controle sobre as circunstâncias, temos sempre a “última das liberdades” — a capacidade de escolher nossa atitude diante do sofrimento e de dar sentido à vida.

🌍 Recepção do público e da crítica
A obra é muito elogiada pelo público e pela crítica especializada. É um dos livros mais lidos do mundo, com milhões de cópias vendidas e traduzido para dezenas de idiomas.
Frequentemente aparece em listas de “livros que mudam vidas”.
⭐ Por que ler este livro hoje
Por alguns motivos, recomendo fortemente a leitura:
1. Mudança de perspectiva
A leitura ajuda o leitor a sair de uma postura passiva para uma postura ativa diante da vida. Não é bom simplesmente ficar esperando pelas circunstâncias perfeitas. A ideia é sempre fazer as melhores escolhas, mesmo em situações complicadas na vida.
2. A “última das liberdades”
A obra nos apresenta um conceito libertador: o mundo pode nos tirar tudo (bens, status, saúde, pessoas amadas), mas ninguém pode nos tirar a liberdade de escolher como reagir ao que nos acontece. Em tempos de tantas incertezas e crises globais, essa mensagem é fundamental.
3. Combate ao “vazio existencial”
A obra é extremamente atual porque vivemos na era do excesso de estímulos e da falta de sentido. Frankl previu que o maior mal do homem moderno seria o “vazio existencial” — aquela sensação de tédio ou falta de rumo mesmo tendo conforto material. A leitura do livro oferece pistas sobre como identificar um sentido para a vida.
4. Escrita acessível e profunda
Diferente de muitos outros livros de psicologia que frequentemente são bem técnicos, “Em Busca de Sentido” é uma leitura acessível. O autor não teorizou sobre a dor de longe; ele realmente passou por experiências bem traumáticas. Algumas dessas experiências são descritas vividamente no livro e, a partir delas, o autor chegou a conclusões importantes sobre o que realmente deveria ser mais valorizado por todos nós.
5. Universalidade
Não importa a religião, ideologia ou profissão de uma pessoa. A busca por sentido é uma experiência humana universal. Por isso, o livro continua sendo um best-seller décadas depois: ele fala diretamente com a alma de qualquer pessoa que já se perguntou “Por que eu estou aqui?”.
Por tudo isso, recomendo a leitura!
📌 Trechos do livro para saborear
“Não há nada no mundo, arrisco-me a dizer, que surtiria tanto efeito em ajudar alguém a superar mesmo as piores situações quanto saber que sua vida tem um sentido.”
O empenho para dar à vida algum significado é a principal força motivadora do homem.
É a primeira vez na vida que experimento a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram […]: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana.
[Uma] pessoa interiormente pode ser mais forte que seu destino exterior, e isto não somente no campo de concentração. Sempre e em toda parte a pessoa está colocada diante da decisão de transformar a sua situação de mero sofrimento numa produção interior de valores.
Naturalmente são poucas as pessoas capazes para isso; mas elas conseguiram, mesmo no fracasso exterior e mesmo na morte, alcançar uma grandeza humana que antes, em sua existência cotidiana, talvez jamais lhes tivesse sido concedida
Quem conhece as estreitas relações existentes entre o estado emocional de uma pessoa e as condições de imunidade do organismo compreenderá os efeitos fatais que poder ter a súbita entrega ao desespero e ao desânimo.
“Quem tem um por que agüenta qualquer como”. E, inversamente, ai daquele que não via mais a meta diante de si em sua vida, cuja vida não tinha mais conteúdo, mas perdia o sentido de sua existência e assim todo e qualquer motivo para suportar o sofrimento
Afirmar que alguém fazia parte da guarda do campo de concentração, ou que foi prisioneiro no campo não quer dizer nada. A bondade humana pode ser encontrada em todas as pessoas e ela se acha também naquele grupo que à primeira vista deveria ser sumariamente condenado. Não podemos simplificar as coisas dizendo: “Os prisioneiros são anjos, e os guardas são demônios”
Lembro-me que um dia um capataz (não-prisioneiro) furtivamente me passou um pedaço de pão. Eu sabia que ele só podia tê-lo poupado da sua merenda. O que me derrubou a ponto de derramar lágrimas não foi aquele pedaço de pão em si, e sim o afeto humano que esse homem me ofereceu naquela ocasião, a palavra e o olhar humanos que acompanharam a oferta…
Ficamos conhecendo o ser humano como talvez nenhuma geração humana antes de nós. O que é, então, um ser humano? É o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios.
O que acontece, porém, é que o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores!
A preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial, mas de forma alguma uma doença mental. […] Ouso dizer que nada no mundo contribui tão efetivamente para a sobrevivência, mesmo nas piores condições, como saber que a vida da gente tem um sentido
É concreto que atualmente o tédio está causando e certamente trazendo aos psiquiatras mais problemas de que o faz a angústia.
Não são poucos os casos de suicídio que podem ser atribuídos a um vazio existencial.
Contudo, mesmo que todo e qualquer caso de suicídio não tenha sido levado a cabo por causa de um sentimento de falta de sentido, é bem possível que o impulso de tirar a vida tivesse sido superado se a pessoa tivesse estado consciente de algum sentido e propósito pelos quais valesse a pena viver.
Parte das pessoas que hoje buscam um psiquiatra teriam procurado [uma religião] em épocas anteriores. Agora elas frequentemente confrontam o médico com questões como: “Qual é o sentido da minha vida?”
No entanto, quando o paciente está sobre o chão firme da fé religiosa, não se pode objetar ao uso do efeito terapêutico das suas convicções religiosas e, assim, ao aproveitamento de seus recursos espirituais.
Quando a percepção de um sentido para a vida desaparece, a busca pelo prazer imediato toma as rédeas.
Porventura isto não nos lembra de uma situação paralela com que nos confrontamos todos os dias? Penso naqueles jovens, em escala mundial, que se referem a si mesmos como “geração sem futuro”. Sem dúvida, não é apenas ao cigarro que eles apelam: é às drogas.
Muitas pessoas têm o suficiente com o que viver, mas não têm nada por que viver; têm os meios, mas não têm o sentido.
Consequentemente, sempre que eu conseguia persuadir os pacientes [a prestar um serviço voluntário] – em outras palavras, quando preenchiam o seu abundante tempo livre com alguma atividade não remunerada mas significativa e portadora de um sentido – a sua depressão desaparecia, embora a sua situação econômica não houvesse mudado e a sua fome continuasse a mesma. A verdade é que o ser humano não vive apenas de bem-estar.
Porque o mundo está numa situação ruim. Porém tudo vai piorar ainda mais se cada um de nós não fizer o melhor que pode. Portanto, fiquemos alerta – alerta em duplo sentido: Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. E desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo.
