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Resenha do livro O sentido dos sentidos

SOBRE O LIVRO

Conheci a tese de doutorado O Sentido dos Sentidos: A Educação (do) Sensível durante um curso de Pós-Graduação que fiz em 2005, na Universidade Federal da Bahia. Uma das disciplinas que eu mais gostei desse curso foi Seminários Avançados III, coordenada pela saudosa professora Rosa Virgínia Mattos e Silva. No segundo módulo dessa disciplina, tive a oportunidade  de ter aulas com a professora Edleise Mendes, que discutiu com a turma o primeiro capítulo da obra do professor João Francisco Duarte Júnior. A tese foi defendida no ano de 2000 na Faculdade de Educação da Unicamp. Achei muito bom o conteúdo desse capítulo e resolvi ler a obra completa. Algum tempo depois, soube que a tese havia sido publicada em forma de livro pela editora Criar Edições em 2001  e adquiri meu exemplar.

Nesse livro, de cerca de 230 páginas, o autor nos convida a uma reflexão profunda sobre os rumos tomados pela sociedade moderna. Em sua visão, vivemos em uma civilização que supervaloriza o desempenho técnico, a produtividade e o dinheiro, e dá pouca importância a aspectos relacionados à essência humana como a beleza,  a ética, a moral e a empatia. Para Duarte Júnior, estamos mergulhados em uma espécie de “anestesia dos sentidos”. Ele defende que uma educação verdadeiramente proveitosa deve ser mais integral — unindo razão e emoção, corpo e mente, conhecimento e experiência sensível.

Ao longo dos capítulos, Duarte Júnior analisa questões como a desumanização dos espaços urbanos, o empobrecimento das relações humanas, os limites da ciência moderna e a função da escola na sociedade atual. 

A versão original da tese está disponível gratuitamente no repositório da Unicamp em formato PDF, facilitando o acesso para quem quiser ler a obra na íntegra.

Clique na imagem para baixar o pdf da tese, gratuitamente.

POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO

Gostei porque o livro me ajudou a compreender melhor o percurso histórico que nos trouxe até o momento atual — um momento de crise profunda, que atravessa todos os níveis da vida. A obra ajuda a perceber  que, muitos comportamentos tidos como “normais” são, na verdade, reflexos de uma sociedade embrutecida, insensível ao sofrimento humano e às agressões ao meio ambiente. Uma sociedade que, por seguir esse caminho, está à beira do colapso.

O livro O Sentido dos sentidos  discute as ameaças que o mundo enfrenta atualmente como  o risco de uma guerra nuclear, as mudanças climáticas, a desigualdade crescente e a fragilidade emocional das pessoas. Com uma escrita ao mesmo tempo simples e bem fundamentada, o autor nos convida a refletir sobre essas ameaças e em nossos hábitos cotidianos. Tal reflexão, sem dúvida, pode contribuir para uma vida mais sensível e significativa. Vale a pena ler!

Uma das questões discutidas na obra é a poluição do meio ambiente.

TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR

Introdução do livro

Na introdução, o autor faz comentários gerais sobre a Idade Moderna. Em sua visão, a característica fundamental da modernidade é a ênfase em aspectos quantitativos e técnicos e o desprezo pelos sentidos e sentimentos humanos. Nesse ambiente de “anestesia” geral, torna-se imperiosa uma educação da sensibilidade para uma melhor qualidade de vida.

Trechos destacados:

“Desenvolver e refinar os sentidos, eis a tarefa, tanto mais urgente quanto mais o mundo contemporâneo parece mergulhar numa crise sem precedentes na história da humanidade.”

“Assim, o que estamos assistindo neste final do século XX é a proliferação de especialistas dotados de conhecimentos cada vez mais exclusivos e parciais, com o decorrente desaparecimento daquelas pessoas detentoras de uma sabedoria abrangente e integrada.”

“O nosso corpo foi transformado numa espécie de máquina, independente não só do ambiente onde vive, mas também dos próprios pensamentos e sentimentos nele e por ele gerados.”

“O nosso corpo foi transformado numa espécie de máquina, independente não só do ambiente onde vive, mas também dos próprios pensamentos e sentimentos nele e por ele gerados.”

“As diferenças culturais (vale dizer, modos de vida e de expressão particulares) são apagadas numa mesmidade mundial, padronizada em torno do consumo.”

“O maquinismo foi elevado a valor cultural supremo.”

“O sentimento de beleza constitui um dos mais fundamentais dentre todos os que animam e orientam o ser humano.”

“Nos teóricos da atual universidade brasileira, prevalece um acentuado academicismo e um marcante cerebralismo. Interpretações e releituras são valorizadas em excesso, deixando-se pouco espaço para vivências, experiências e reflexões pessoais.”

“Nas escolas, faculdades e universidades, sujeira, lixo atirado ao chão, depredações e outras mazelas promovem um ambiente hostil que fere os sentidos de visitantes ocasionais, mas parece pouco importar àqueles (des)educados em tal situação.”

“A vida é exercida, antes de tudo, valendo-se desses saberes sensíveis e conhecimentos que o arrogante intelectual apressa-se logo em classificar como ‘não-científicos’.”

“Novas atitudes perante a realidade devem ser adotadas, sob pena de extinção de grande parte da vida neste planeta.”

“O sentimento de beleza constitui um dos mais fundamentais dentre todos os que animam e orientam o ser humano.”
Capítulo um – O sentido de nossa crise

Como dito antes, tive o prazer de considerar esse capítulo com a professora Edleise Mendes. O objetivo do autor nessa parte foi descrever o percurso histórico que levou a humanidade ao ponto de crise atual. Para o autor, as bases da vida moderna foram lançadas entre os séculos XI e XIV.

Trechos destacados:

“A modernidade comete o erro de tomar teorias e outros modelos explicativos como se fossem a realidade em si mesma, e não formas simplificadas de se representar e entender os fenômenos do mundo.”

“A revolução industrial (entre os séculos XVIII e XIX) significou um radical processo de reeducação do corpo humano. Corpo esse que, de maneira acelerada, precisou adaptar-se a um esquema produtivo que se mostrava indiferente às suas necessidades e ritmos vitais. Os desequilíbrios físicos e psíquicos verificados à época foram notáveis.”

“A crença iluminista no século XVIII era de que a ciência era o instrumento eficaz para erradicar a explicação mítica e a superstição. No entanto, ao longo desse século, foi-se construindo uma nova forma de superstição: a científica. Tornou-se comum a fé num ilimitado progresso científico, que haveria de conduzir a humanidade a um mundo sem precedentes em termos de felicidade e facilidades para se viver, ou seja, o utopismo tecnocientífico.”

“A eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914), o vasto acervo técnico e científico que se viera acumulando passará, num instante, a ser empregado não na emancipação do ser humano, e sim em sua destruição.”

“Na Segunda Guerra Mundial, a destruição tornou-se ainda maior, pois um irracionalismo cego tomou conta de nações, de líderes e mesmo de populações. Nunca a humanidade assistira a um conflito de tamanhas proporções […]. E com uma radical alteração naquilo que ao longo da história se veio entendendo por conflito bélico: os embates entre forças inimigas deixaram de acontecer apenas nos campos de batalha, tal como sucedera até a Primeira Grande Guerra, deslocando-se para as ruas das cidades e aldeias, as quais se veriam sistematicamente bombardeadas, saqueadas e destruídas junto com suas populações civis.”

“Com a explosão da bomba atômica em Hiroshima, atingimos um estágio absolutamente inédito em nossa história, no qual a humanidade passou a deter suficiente poderio para aniquilar a si própria e a todas as demais formas de vida existentes no planeta.”

“Prevalece na sociedade um tipo de raciocínio que se ocupa do funcionamento dos processos em detrimento de qualquer reflexão acerca de valores humanos e éticos neles contidos.”

“A complexidade da vida humana resulta de um entretecer de fatores físicos, metabólicos, sensíveis, emocionais, ambientais, sociais e culturais. No entanto, a medicina contemporânea geralmente desconsidera essa complexidade, o que resta é um corpo que possui bem pouco de humano, no sentido maior do termo.”

Assustador: ‘A humanidade adquiriu o poder de aniquilar a si própria e a todas as formas de vida do planeta!’
Capítulo dois – A crise de nossos sentidos

No capítulo 2, o autor argumenta que a grave crise que atinge a sociedade pode ser percebida também por meio da análise de situações e hábitos cotidianos de seus indivíduos. De um modo geral, as pessoas são mais frias, insensíveis, demonstram menos empatia e respeito por valores humanos e preocupam-se exageradamente com aspectos materiais.

Trechos destacados:

“O fato é que o exponencial desenvolvimento tecnológico a que estamos assistindo vem se fazendo acompanhar de profundas regressões nos planos social e cultural, com um perceptível embrutecimento das formas sensíveis de o ser humano se relacionar com a vida.”

“As residências foram transformadas em meros aglomerados materiais, sem alma nem sentimento e dotadas apenas do propósito mínimo do lucro em troca de um abrigo elementar e padronizado. […] As casas deixaram de ser um lar, no sentido de constituir uma extensão de nossas emoções e sentimentos. As casas transformaram-se em uma ‘máquina de morar’. Basta uma olhada sobre os conhecidos ‘conjuntos habitacionais’ populares que se multiplicam no Brasil para se constatar essa desumanização da casa, conduzida aí ao seu grau mais extremo.”

“Nas cidades prevalecem enormes edifícios, ou seja, monstrengos de concreto e vidro que se espalham por nossas cidades, frios, assustadores e desprovidos de calor humano.”

“As construções antes tinham um ‘cor local’, ou seja, refletiam um estilo de vida ou uma cultura. Hoje, tanto faz se edificar na China, em Portugal, na Suíça ou no Brasil. Em todo e qualquer caso, o edifício precisa seguir o mesmo padrão utilitário/geométrico […].”

As residências foram transformadas em meros aglomerados materiais, sem alma nem sentimento e dotadas apenas do propósito mínimo do lucro em troca de um abrigo elementar e padronizado

“As ruas vão se tornando cada vez menos um acolhedor e convidativo lugar de passeio e cada vez mais um simples elo de ligação entre a casa e o compromisso, uma distância que deve ser rapidamente vencida a fim de evitar ameaças à nossa integridade, bem como desnecessárias perdas de tempo […]. Não mais passeios ao pôr-do-sol, não mais um vagar descompromissado com os sentidos tocados pelas cores, pelos sons e odores do lugar, não mais um sentimento de cidade como uma extensão amorável do corpo. Em troca, o caos, a brutalidade, o medo e a violência, a sujeira e a fealdade.”

“A esteira mecânica é uma engenhoca que transforma o prazer do passear num torturante caminhar sem sair do lugar, envolto numa paisagem de paredes e móveis domésticos, ou pior, de frios esqueletos de ferro e molas desses aparelhos de academias.”

“A conversação, sem dúvida, constitui uma arte, para se empregar uma expressão popular. Saber argumentar, saber contar, narrar, prender o ouvinte e, sobretudo, saber ouvir o que ele tem a dizer só se aprende com alguma prática. […] No entanto, a maioria das reuniões atuais, mesmo as festivas, oferecem poucas oportunidades para que exerçamos a arte do conversar, notadamente pelo volume beirando ao insuportável que a música costuma ter nelas. E as festas hoje parecem destinar-se a uma série de outros propósitos que não o encontro humano mediado pela conversação, propósitos que variam da embriaguez à dança, da autoexibição à busca de um parceiro sexual.”

“Nos dias que correm, é muito mais comum estarmos informados sobre as ocorrências de nosso próprio bairro por meio dos jornais, rádio ou televisão, do que através da conversa com vizinhos e outros habitantes do local.”

“A esteira mecânica é uma engenhoca que transforma o prazer do passear num torturante caminhar sem sair do lugar, envolto numa paisagem de paredes e móveis domésticos, ou pior, de frios esqueletos de ferro e molas desses aparelhos de academias.”

“Para se falar com alguém de carne e osso numa grande corporação, via telefone, é necessário cumprir-se uma árdua peregrinação por sistemas que nos solicitam digitar tais e tais números em nosso aparelho a fim de caminharmos pelos seus labirintos informatizados.”

“Atrelada ao modelo econômico industrial, a produção de alimentos só tem sentido na medida em que seja mensurada pelo lucro financeiro obtido com a sua comercialização, e, caso haja excedente de qualquer produto no mercado, sua destruição pura e simples deve ser implementada, a fim de se manter a lucratividade num patamar adequado, sem nenhuma consideração para com a carência de grandes parcelas da humanidade. O sistema é implacável e exige o lucro, mesmo às custas de vidas e vidas ceifadas pela mais terrível das mortes, aquela advinda pela inanição.”

“Entre os humanos, a ação de comer veio carregando um certo caráter ritualístico e até sagrado […] Reunir os amigos e cozinhar, desfiando conversas em torno do fogão enquanto se processa a alquimia do prato, com seus temperos e especiarias. A satisfação direta dos sentidos, proporcionada por aromas e sabores. […] No entanto, a velocidade industrial imprimida à vida destes nossos dias veio nos afastando quase completamente dessas celebrações à mesa. […] Muitos fazem as refeições em pé, entre um compromisso e outro, nos restaurantes de fast-food, ou comida rápida.”

“Não faltam nutricionistas que absolutamente se esqueceram do caráter prazeroso do comer, enxergando os alimentos tão só através de tabelas numéricas referentes a glicídios, lipídios, vitaminas, carboidratos, etc.”

“Pois, desde a sua criação, a indústria alimentícia veio, progressivamente e em nome da praticidade e da economia de tempo, aplanando os sabores, padronizando os odores e nos impingindo uma série de produtos, outrora intragáveis, como a mais moderna forma de nos alimentarmos. […] Conservantes, acidulantes, corantes, flavorizantes, etc., etc., tornam os produtos alimentícios verdadeiros monstros do Dr. Frankenstein, que, mais e mais, a maioria vai identificando como os únicos sabores possíveis.”

“Não faltam nutricionistas que absolutamente se esqueceram do caráter prazeroso do comer, enxergando os alimentos tão só através de tabelas numéricas referentes a glicídios, lipídios, vitaminas, carboidratos, etc.”

“Inclusive as crianças vêm tendo seu paladar – vale dizer, um aspecto de sua sensibilidade – deseducado e embrutecido sistematicamente. […] Embalagens vistosas, promoções, brindes e comerciais televisivos iludem desde tenra idade esses pequenos consumidores […].”

“Na chamada ‘sociedade do espetáculo’, o universo das imagens representativas passa a prender muito mais a nossa atenção do que a realidade em que nos movemos. Fechada entre as quatro paredes de um apartamento, a criança se encontra hoje bombardeada por imagens que lhe chegam pela televisão, pela tela do computador, pelas fitas de vídeo, por revistas e jornais, etc., enquanto o mundo lá fora parece esfumar-se.”

“Com a atenção voltada quase exclusivamente para a representação das coisas, vamos nos tornando indiferentes e cegos para as próprias coisas.”

“Muitos indivíduos caminham quase por obrigação, com os olhos fixos no solo ou perdidos no infinito, indiferentes às maravilhas visuais da natureza e do mundo cultural a rodeá-los.”

“Nas cidades brasileiras, o lixo é atirado nas ruas tanto pelo inculto cidadão quanto pelo professor universitário, fechado em si e cioso de suas elucubrações metafísicas e científicas.”

“No mundo grego, entendia-se trabalho, por exemplo, como produção (poiesis), ou como ação (práxis). Isto é: ao trabalhar, ou se produzia um bem, transformando matérias-primas, ou se executa uma atividade, realizando um feito. Ou seja, a concepção de trabalho estava ligada ao corpo, às habilidades e aos desejos do trabalhador. O labor humano ocorria baseado num sentido, na criação de um significado, bem como no domínio de habilidades corporais e mentais. […] É interessante que o termo poiesis, em nossa língua, veio posteriormente tornar-se poesia: um exercício voltado à construção da beleza. […] Já na sociedade industrial moderna, o trabalho tornou-se uma função, ou seja, o desempenho de uma atividade controlada e racionalmente planejada dentro de uma lógica maior, o que faz de seu executante um mero funcionário.”

“[…] O que tem de criador, autosatisfatório e pessoal o trabalho, tem de mecânica, repetitiva e anônima a função.”

“As inúmeras facilidades da moderna tecnologia superam aquele ideal benéfico de conforto buscado desde sempre, atirando muitas pessoas num estado de letargia e inação que as faz considerar incômodos e excessivos os mínimos movimentos exercícios corporais diários, os quais, inclusive, constituem uma fonte fundamental de saúde e bem-estar orgânico.”

O lixo é atirado nas ruas tanto pelo inculto cidadão quanto pelo professor universitário, fechado em si e cioso de suas elucubrações metafísicas e científicas.”

“As tarefas cotidianas aparentemente tão maçantes quanto improdutivas, e das quais a indústria do hiperconforto pretende nos libertar de uma vez por todas, de acordo com uma visão mais antiga e ‘espiritualizada’ parecem constituir durante o seu desempenho, não só momentos propícios à meditação, além de manter nosso corpo em movimento, também nos torna conscientes da constante repetição dos ciclos universais nos quais estamos inseridos.”

“No âmbito da educação, os bons resultados apenas são conseguidos através de um dedicar-se, com afinco, às tarefas que nos cabem, ainda que muito exigentes e cansativas elas se nos revelem.”

“A hiperrealidade tem a ver com toda representação melhorada do real, levada a cabo pelos instrumentos tecnológicos e veiculada pelos meios de comunicação, feito as revistas ilustradas e a televisão.”

“Essa hiperrealidade criada pelos meios de comunicação mostra-se muito mais atraente, colorida e encantadora do que o poluído e decadente mundo das ruas. Assim, por ser a realidade urbana feia e perigosa, não é difícil compreender-se a atração representada por esse universo cheio de encantos da tela pequena e a força com que ele se impõe a nós. […] Até mesmo tragédias e guerras ganham encantos multicor.”

“Após imposição do governo norte-americano, a mídia televisiva, em relação à Guerra do Vietnã, construiu uma ilusão de um combate asséptico feito um inocente jogo eletrônico; uma realidade na qual, de certa forma, a própria guerra foi tornada bela. Não houve, praticamente, qualquer referência aos 300 mil civis destroçados pelos bombardeios, segundo se calcula.”

“A comida artificial substitui a natural com sabores, cheiros e cores intensificadas industrialmente, contribuindo para a deseducação do paladar dos consumidores.”

“Enquanto as cidades se degradam, os shoppings centers adquirem um estatuto de redoma, com constantes incrementos em seus atrativos e sedutores simulacros. […] Muitos dos condomínios fechados estão se tornando quase que pequenas cidades, com lojas, escolas e até igrejas por detrás de seus altos muros protegidos por guardas.”

“Ao se veicular, de modo exclusivo, um determinado tipo de beleza, esta se padroniza como sendo a única possível e desejável, descartando-se toda e qualquer variação na forma, cor e na textura do corpo como passível de apreensão estética.”

“Enquanto as cidades se degradam, os shoppings centers adquirem um estatuto de redoma, com constantes incrementos em seus atrativos e sedutores simulacros.

“Um dos mais sérios processos de construção de simulacros em curso nos dias correntes diz respeito ao próprio corpo humano. Por exemplo, a nudez das mulheres expostas pela mídia frequentemente tem a ver mais com uma idealização da figura feminina do que a imagem de uma mulher de carne e osso. Essa figura idealizada é o resultado de um trabalho de iluminação, maquiagem e tratamentos artísticos manuais e computadorizados.”

“Além dos simulacros corporais veiculados pela mídia, os quais vão servindo de modelo aos ávidos consumidores, uma série gigantesca de produtos é vendida a todo aquele que pretenda atingir tal ideal. Assim, qualquer vivência do próprio corpo, na atualidade, deve forçosamente passar pelo consumo de um bem ou serviço especializado. Por exemplo, para se manter a forma física através de exercícios, há que se consumir calçados e roupas especiais, bem como frequentar-se academias que dispõem de máquinas e aparelhos sofisticados.”

“Desta maneira, grande parte do que passa por libertação e desenvolvimento corporal, nos dias que correm, consiste numa prisão erigida por ideais frequentemente inatingíveis.”

“A economia contemporânea vem se sustentando e se ampliando muito mais através de signos financeiros do que por meio de bens e produtos concretos. […] Há um intercâmbio mundial de papéis que, acima mesmo do dinheiro, carregam em si valores monetários abstratamente impressos. E, para além dos papéis, cujo volume representativo é muito maior do que a riqueza real existente, circulam rapidamente pelos computadores bancários cifras e valores na forma de impulsos elétricos e luminosos, signos de um signo de um signo. Muitos apontam para as possibilidades catastróficas dessa autonomização da economia e do seu consequente distanciamento da concretude do mundo.”

“Hoje parece inquestionável o propósito lucrativo da globalização, estimulada e perseguida pelas grandes organizações e corporações industriais, sediadas fundamentalmente na maior economia do planeta, os Estados Unidos.”

“Tanto a globalização instrumentalista quanto o multiculturalismo estreitamente fanático (que despreza o princípio de que todos somos humanos e que existem valores universais que independem das culturas particulares) atuam contra a liberdade das pessoas e ameaçam o planeta.”

Capítulo três – O saber sensível

No capítulo três, o autor ressalta a importância de nos aproximarmos da vida cotidiana. A vida se apresenta em múltiplas formas de expressão e de percepção. O saber sensível, realmente benéfico para a alma, consiste na vida em todas as suas dimensões e não pode ser reduzido a uma dimensão baseada em números. Muito desse saber é intuitivo e emana do nosso próprio corpo. Nesse contexto, o autor destaca a arte como uma importante forma de perceber o mundo e refinar nossa sensibilidade. Eis os meus destaques desse capítulo:

Trechos destacados:

“Grande parte do nosso agir cotidiano não requer o concurso de um pensamento abstrato elaborado. Por exemplo, não se pensa ao se desviar subitamente o carro de um obstáculo inesperado, nem ao se escolher uma colônia em vez de outra. O corpo sabe o que fazer e o que escolher nestes casos – pensar implicaria em se perder tempo e em não resolver o problema na fração temporal exigida.”

“O que nos separa dos animais é que os pensamentos que moram na nossa cabeça desandaram a proliferar, multiplicaram-se, cresceram. O que teve vantagens indiscutíveis porque foi graças aos pensamentos que moram na cabeça que o mundo humano se construiu. A filosofia, a ciência, a tecnologia… cresceram tanto que chegaram a entupir a sabedoria do corpo. O conhecimento vai crescendo, sedimentando, camada sobre camada, e chega um momento em que nos esquecemos da sabedoria sem palavras que mora no corpo.” (Rubem Alves, citado por Duarte Júnior)

“O corpo, na verdade, é uma complexa organização que integra, em si, tudo aquilo que nossa linguagem separou ao longo dos tempos, como matéria e espírito, corpo e mente, sensação e pensamento, razão e sentimento, etc. Somos, na verdade, um emaranhado de processos altamente organizados e interdependentes […].”

“No mundo adulto, o trabalho do artista consiste em combinar e articular os dados sensórios simples (luz, cores, sons) numa configuração que carregue um significado maior do que a mera soma de pequenas experiências sensoriais. A experiência estética proporcionada por sua obra nos fala de vida e morte, de alegria e tristeza, de sorte e fatalidade, de sonhos e desencantos, dialogando com a inteireza de nossa corporeidade.”

“Mas o que se tem visto atualmente, em especial no âmbito das artes plásticas, são, na esmagadora maioria das vezes, trabalhos que se contentam em apresentar ao espectador meras estimulações sensórias, trabalhos desprovidos de uma elaboração que os faça atingir o patamar do sensível, do sentido maior, do adulto. Ao artista e ao público parece bastar essa experiência rasteira e infantil junto a estimulações simploriamente sensoriais.”

“A indústria cultural e os artistas que se colocaram a seu serviço rebaixaram o nível de qualidade dos produtos oferecidos ao público como obras de arte e passaram a difundir a versão de que tudo em nosso entorno possui uma dimensão intrinsecamente estética, de talheres a aeroportos, de canetas descartáveis a shopping centers, de maços de cigarros a caminhões.”

“A feiura custa caro. Qual é a economia da feiura? Qual o custo para o bem-estar físico e para a harmonia psicológica de um design descuidado, de corantes vagabundos, barulhos, estruturas e espaços insanos? Passar um dia num escritório sob luz direta, brilhante, em cadeiras ruins, vítima do ruído constante e monótono de máquinas, olhando para baixo e vendo um chão revestido de borrões, entre plantas artificiais, […] e então, no final do dia, encarar o trânsito, fast food, casas padronizadas, qual o custo disso? Qual o custo disso […] em obsessões sexuais, abandono escolar, alimentação compulsiva e pouca capacidade de concentração? […] Poderiam as causas das grandes questões sociais, políticas e econômicas de nosso tempo também ser encontradas na repressão da beleza?” (James Hillman, citado por Duarte Júnior)

“A feiura custa caro. Qual é a economia da feiura? Qual o custo para o bem-estar físico e para a harmonia psicológica de um design descuidado, de corantes vagabundos, barulhos, estruturas e espaços insanos?
Capítulo quatro – Educação (do) sensível

Nas páginas finais do livro, o autor enfatiza a ideia de que a educação através da arte é uma estratégia importante para o desenvolvimento da sensibilidade. Mas a arte, na visão do autor, deve ser resgatada em seu espírito original, ou seja, uma arte que apele para todos os sentidos humanos. O estudo da arte deve privilegiar vivências, experiências e reflexões pessoais, e não apenas aspectos teóricos. É digno de nota a ênfase dada pelo autor à importância de atentarmos para a arte que existe na natureza ao nosso redor.

Trechos destacados:

“Sábio é aquele que monotoniza a vida, pois o menor incidente adquire então a faculdade de maravilhar.” (Fernando Pessoa, citado no capítulo 4)

“A figura do especialista só pode nos aparecer como alguém manco da existência, ou seja, alguém que investe seu tempo e energia num conhecimento altamente parcializado, o qual, além de não habilitá-lo a desempenhar com eficiência e leveza sua vida cotidiana, ainda o afasta dela de maneira progressiva, com toda a patologia individual e social decorrente do fato.”

“Quanto maior a visão em profundidade, menor a visão em extensão. A tendência da especialização é conhecer cada vez mais de cada vez menos.” (Rubem Alves, citado por Duarte Júnior)

“O espírito de repressão ao corpo domina a assim chamada ‘comunidade acadêmica’. Isso é evidenciado no ato de colação de grau universitária. Lá está o professor! Ele simboliza as mais altas aquisições da mente em nossa sociedade. Seu corpo mostra-se contraído. Sua humanidade se perdeu. Isto é o que a disciplina acadêmica produz: horas e horas com todos os sentidos corporais desligados e apenas com o intelecto em operação, horas e horas trancado num escritório com escrivaninha, estantes e livros. Em seu rosto já se nota a presença da morte. Agora, o momento de glória! O professor entregará o símbolo de excelência intelectual a seu discípulo, que conseguiu dominar a erudição acadêmica, tornando-se alguém como o mestre. E o discípulo recebe o diploma: um tubo de ensaio com um feto morto em seu interior.” (Rubem Alves, citado por Duarte Júnior)

“As especializações não devem ser condenadas per se, dado permitirem significativos avanços no cabedal humano de conhecimento, mas precisam ser relativizadas e articuladas numa percepção de mundo mais abrangente e, por que não, mais humana.”

“A atual sociedade industrial comete o erro de dirigir seus esforços educacionais para a formação de especialistas, cujo campo de atuação se restringe cada vez mais a fatias menores e menores da realidade, sem qualquer preocupação com o mundo amplo no qual vivem e atuam.”

“Sábio é aquele que monotoniza a vida, pois o menor incidente adquire então a faculdade de maravilhar.”

“O ritmo e a dança constituem hoje palavras de frequente uso entre os físicos, na tentativa de exprimir como se processa a ‘vida’ das partículas (em especial no universo subatômico) e mesmo a de todo o cosmo.”

“Os físicos modernos mostraram-nos que o movimento e o ritmo são propriedades essenciais da matéria, que toda matéria – tanto na Terra como no espaço externo – está envolvida numa contínua dança cósmica.” (Fritjof Capra, citado por Duarte Júnior)

“Deve haver um equilíbrio entre o universal e o particular, entre a cultura humana como um todo e aquela cultura específica na qual nascemos e fomos criados.”

“A morte do sujeito não começa pelo pensamento, mas por sua sensibilidade.”

“A obra ‘O Ocidente é um Acidente’, de Roger Garaudy, surge como uma denúncia do quanto a pretensa superioridade do homem branco destruiu e fez com que se perdessem inúmeros conhecimentos e saberes detidos por povos de outras etnias. […] A arrogância da civilização branca produziu uma cegueira filosófica, científica e prática para com a existência de conhecimentos ancestrais eficazes e operantes nas diversas culturas do planeta.”

“É importante uma ação educativa que leve o indivíduo a descobrir e a valorizar conhecimentos presentes na cultura onde vive e a redescobrir saberes que, por esquecidos, tendem ao desaparecimento.”

“Uma maior sensibilidade e uma menor anestesia perante a profusão de maravilhas que este mundo nos permite usufruir e saborear. Uma vida mais plena, prazerosa e sabedora de suas capacidades e deveres face à consciência de nossa interligação com os outros e as demais espécies do planeta. Este, talvez, consista hoje no objetivo mais básico de todo e qualquer processo educacional, por mais especializado que ele possa parecer.”

“Há um mundo natural e cultural ao redor que precisa ser frequentado com os sentidos atentos, ouvindo-se e vendo-se aquele pássaro, tocando-se este outro animal, sentindo-se o perfume de um jardim florido ou mesmo o cheiro da terra revolvida pelo jardineiro, provando-se um prato ainda desconhecido e típico de uma dada cultura, bem como outras experiências de mesmo teor.”

“O despertar para a natureza depende da atitude que um observador leva para um lugar e não somente do lugar para onde vai o observador.” (James Hillman, citado por Duarte Júnior)

“Os primeiros que, no século XX, começaram a duvidar da ciência foram os matemáticos e os físicos, de modo que, quando todo o mundo começava a ter uma fé cega no conhecimento científico, seus mais avançados pioneiros começavam a duvidar dele.” (Ernesto Sabato, citado por Duarte Júnior)

“Para os educandos, é necessário menos informação e bem mais formação intelectual. O fundamental é que se aprenda a aprender.”

“Não estamos muito distantes de uma situação que pode ser chamada de barbárie tecnológica: comportamentos brutais e violentos cujo poder destrutivo se aprimora com o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais sofisticadas. Um mundo de especialistas insensíveis à realidade cotidiana produzindo instrumentos, técnicas e conhecimentos colocados à disposição de massas anestesiadas que necessitam de emoções cada vez mais violentas para sentirem alguma coisa e afirmarem sua existência.”

“Separar corpo e mente é o mesmo que cortar uma laranja em duas e chamar de abacate uma parte e, de manga, a outra.” (Frei Betto, citado por Duarte Júnior)

“Pode-se concluir atualmente que a acumulação de tanto conhecimento sobre o mundo, em razão do desenvolvimento científico, se traduziu em muito pouca sabedoria do mundo. Isso porque adotou-se o saber científico como hegemônico e outros saberes vigentes na sociedade foram marginalizados. Assim, a humanidade aprendeu a sobreviver no mesmo processo em que deixou de saber viver.” (Boaventura do Amaral, citado por Duarte Júnior)