Recentemente, fiz um post sobre o documentário de 20 minutos A História das Coisas. Trata-se de um vídeo feito em 2007 e que até hoje tem muita repercussão em plataformas digitais como o YouTube e também em ambientes acadêmicos. Agora, é a vez de eu falar sobre o livro de mesmo nome inspirado no vídeo.
A autora é a mesma, Annie Leonard, dos EUA, especialista em sustentabilidade e saúde ambiental. O livro não só aprofunda as ideias apresentadas no famoso vídeo, como também é muito elogiado.
Seguem uma visão geral do livro, minhas opiniões e alguns trechos marcantes.
SOBRE O LIVRO
O livro A História das Coisas: Da natureza ao lixo, o que acontece com tudo que consumimos foi publicado no Brasil em 2011. Como já dito, a obra expande as ideias do vídeo.
O argumento central da autora é o de que o nosso planeta enfrenta uma crise sem precedentes e caminha para o colapso. A razão? O sistema econômico atual é linear e desconsidera o fato de que os recursos da Terra são finitos.
O livro destaca cinco etapas desse sistema:
- Extração: Os seres humanos retiram da terra minérios, consomem madeira e água, dentre outros recursos naturais.
- Produção: Os recursos naturais abastecem as fábricas. Essas fábricas geralmente usam produtos químicos altamente tóxicos e exploram a mão de obra humana para produzir as “coisas” que consumimos.
- Distribuição: O que é produzido vai para supermercados, shoppings e lojas diversas, para os consumidores.
- Consumo: É o coração do sistema linear. Espertíssimas estratégias de marketing são usadas para induzir o consumidor a comprar produtos que, em sua maioria, não são essenciais.
- Descarte: No final das contas, a maior parte das “coisas” é usada por pouco tempo. Depois, tudo é simplesmente descartado, ou seja, vai para o lixo.
Enquanto na natureza tudo é cíclico e reaproveitado, a produção humana é linear. Pouca coisa é reaproveitada, há muito desperdício, produção e consumo em excesso. O livro, com base em vários argumentos lógicos e científicos, mostra que o planeta não tem condições de sustentar um sistema como esse.

POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO
Gostei pela atualidade e importância do assunto. É inegável que a nossa civilização enfrenta uma gravíssima crise ambiental, crise essa que ameaça o futuro de todos. E o livro destaca como a produção e o consumo irracional se relacionam com essa crise.
Achei muito interessantes alguns conceitos explicados no livro. Por exemplo, a autora fala da externalização de custos. Lembra daqueles eletroeletrônicos baratinhos que vêm da China? Por que eles são “baratinhos”? Porque os custos são externalizados. O preço baixo esconde os preços reais: poluição, esgotamento de recursos, o sofrimento de bilhões de trabalhadores mal remunerados e em condições insalubres, trabalho infantil, etc.
O livro também explica sobre obsolescência programada e obsolescência perceptiva. Eu conhecia bem a primeira, mas ainda não tinha lido muita coisa sobre a obsolescência perceptiva. Foi proveitoso ler como a indústria, de um ano para outro, faz leves modificações na aparência de bens duráveis, como carros, para que o consumidor fique com a percepção de que seu carro é obsoleto, antigo, apesar de ainda funcionar bem. Trata-se de uma esperta estratégia para induzir a troca desnecessária.
Gostei também da linguagem acessível. O livro aborda questões complexas, inclusive científicas, de um modo claro, direto e envolvente. A obra também é muito bem pesquisada; a autora realmente fala com conhecimento de causa. Não é para menos: o livro é fruto de décadas de pesquisa e visitas de campo da autora a fábricas e lixões ao redor do mundo.
Principalmente, assim como no documentário, o livro me fez pensar muito no grande contraste entre a natureza e o modo de produção humana. Na natureza, tudo é cíclico, reaproveitado de um modo perfeito, sem desperdício. Já o homem, de um modo geral, faz tudo de um modo linear e não sustentável.

Recomendo bastante a leitura. O livro nos incentiva a prestar atenção no perigo que confrontamos e nos estimula a ser consumidores conscientes, e não consumistas.

TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR
O Problema Central: Um Sistema Finito
“O que acontece quando um subsistema (no caso, o econômico) segue crescendo dentro de outro com tamanho fixo? Ele bate no teto. A economia em expansão vai de encontro aos limites da capacidade planetária de sustentar a vida.”
“A fé de nossa sociedade no crescimento econômico repousa na suposição de que sua continuidade é tão possível quanto benéfica. Mas nenhum dos dois pressupostos é verdadeiro. Primeiro porque, devido aos limites do planeta, o crescimento econômico infinito é impossível. Ultrapassado o patamar em que as necessidades humanas básicas são atendidas, ele tampouco se revelou uma estratégia para aumentar o bem-estar. Registramos hoje nas grandes metrópoles um alto nível de estresse, depressão, ansiedade e solidão.”
“Nos Estados Unidos, duas das principais atividades de lazer são ver televisão e comprar Coisas. Saímos para trabalhar, voltamos exaustos para casa e desabamos diante da TV; os comerciais dizem: ‘você precisa de Coisas novas para se sentir bem’; e então trabalhamos ainda mais para poder pagar mais Coisas. É o que chamo de trabalhar-assistir-gastar.”
O Custo Real: Externalização e Injustiça
“Seguramente, alguns dos custos diretos, como os relativos a mão de obra e matéria-prima, estão incluídos no preço, mas esses são inexpressivos se comparados aos custos ocultos externalizados, como a poluição da água potável, o impacto na saúde dos trabalhadores e das comunidades vizinhas às fábricas e as mudanças no clima global. Quem paga por isso? […] Já que esses custos são pagos por pessoas e organismos externos às empresas responsáveis por gerá los, são chamados de custos externalizados.”
“Muitos americanos não percebem que, em parte, é por isso que podem comprar bens por um preço tão baixo. Das gigantescas usinas químicas em Nova Orleans, passando pelas zonas carregadas de emissões de diesel do Bronx […] eu vi como comunidades pobres, analfabetas e que não têm a pele branca são tratadas: como descartáveis.”
“Você se lembra de Jdimytai Damour? Em novembro de 2008, na Black Friday […] uma multidão de mais de 2 mil pessoas já se espremia do lado de fora da loja [Wal-Mart, um grande supermercado norte-americano]. Quando as portas se abriram, Jdimytai Damour, um funcionário temporário haitiano, de 34 anos, foi atropelado pela massa. As pessoas simplesmente passaram por cima dele para alcançar os produtos em oferta. […] Pisoteado, Jdimytei morreu por asfixia.”
“Muitas empresas famosas já não produzem nada por conta própria. Elas apenas compram e etiquetam Coisas que outras fazem. A Nike não produz sapatos. A Apple não produz computadores. A Gap não produz roupas. Elas compram sapatos, computadores e roupas (e os componentes para fabricá-los) de diversas fábricas ao redor do mundo.”
“Na prática, o que acontece é que uma mesma fábrica acaba fazendo produtos para diversas marcas concorrentes, que se distinguem apenas quando a etiqueta é aplicada sobre eles. O que empresas como Nike, Apple e Gap realmente produzem são marcas, e essas marcas são o que os clientes compram.”
“Já que os consumidores entraram nesse jogo de supervalorizar a marca, o polo mais poderoso dessa cadeia se transferiu dos fabricantes para as marcas e os varejistas. […] São eles que decidem o que deve ser feito, em quanto tempo e por quanto. Pouco importa se um determinado fabricante não é capaz de atender às suas demandas; há uma série de outros prontos a fazer o mesmo produto, muitas vezes por um preço mais baixo […] Se eles tentam elevar salários e permitir aos trabalhadores organizar sindicatos, ou se começam a lidar com preocupações sociais, como saúde e meio ambiente, o sistema os pune. As fábricas partem para outro país, onde esses custos de produção não existem.”
“Alguns comparam as multinacionais de hoje a colonizadores. Assim como os poderes coloniais, seu objetivo principal não é fomentar o desenvolvimento econômico local, a felicidade e a prosperidade. Na África, por exemplo, os colonizadores construíam ferrovias que iam do interior até os portos, para que recursos, riquezas e escravos fossem levados para as metrópoles com a maior eficiência possível. É exatamente isso que as grandes redes fazem, com a ajuda das políticas de comércio internacional: constroem trilhos para que a riqueza das comunidades flua em uma única direção – os próprios bolsos.”
O Motor: A Invenção do Consumismo
“Enquanto consumo significa adquirir e utilizar bens e serviços para atender às necessidades, consumismo refere-se à atitude de tentar satisfazer carências emocionais e sociais através de compras e demonstrar o valor pessoal por meio do que se possui.”
“Por isso foi criada uma nova estratégia para manter os clientes comprando: a da obsolescência planejada, segundo a qual alguns bens devem ser ‘programados para o lixo’. [Junto a isso] os anunciantes nem se importam mais em descrevê-los, preferindo associá-los a uma imagem, a um estilo de vida e a status social: se queremos ser como aquela pessoa do comercial (magra, feliz, amada…), precisamos daquele produto que ela usa.”
“É por isso que, quanto mais TVs assistem, mais as pessoas supervalorizam a riqueza dos outros, e se sentem mais pobres. […] Minhas roupas, minha casa e meu carro não apenas têm de ser iguais aos dos meus colegas […] eles devem ostentar o estilo de vida luxuoso de Jennifer Aniston e Beyoncé. Juliet Schor chama o fenômeno de ‘expansão vertical do nosso grupo de referência’.”
“No livro Consumido, Benjamin Barber afirma de modo bastante convincente que o consumismo mantém os adultos num estado mental infantilizado em que é de praxe exigir: ‘Me dê isso!’ O consumismo pressupõe: impulso acima de ponderação; satisfação imediata; narcisismo em detrimento de sociabilidade; direito acima de responsabilidade.”
O Caminho a Seguir: Biomimética e Mudança Real
“Uma das tendências mais animadoras em termos de projetos verdadeiramente revolucionários é a apontada pela biomimética, onde as soluções em design são inspiradas nos princípios fundamentais da natureza. […] A natureza funciona por energia solar, usa uma química à base de água; […] recicla tudo; investe na diversidade…”
“Janine Benyus, fundadora do Biomimicry Institute, cita vários exemplos. Ao invés de usar tintas e ftalatos tóxicos para dar cor às Coisas, por que não imitamos o pavão? O pavão cria as cores brilhantes em sua plumagem através da forma – camadas refletem a luz […].”
“Ao contrário, gosto tanto de Coisas que gostaria que as valorizássemos mais. E que se levasse em conta que cada Coisa comprada envolve diversos tipos de recurso e de trabalho. Alguém extraiu da terra os metais do seu telefone celular; alguém descarregou os fardos do descaroçador de algodão para fazer sua camiseta. Alguém montou seus óculos escuros numa fábrica, e talvez tenha sido exposto a carcinógenos ou forçado a trabalhar além do horário. Por terra ou ar, alguém transportou um buquê de flores pelo país ou pelo mundo para levá-lo até você. Precisamos compreender o valor de nossas Coisas muito além do seu preço e do status da etiqueta. Como muitos americanos, eu tenho Coisas demais. Por isso, só costumo comprar aquilo de que realmente preciso, e de segunda mão, para evitar mais desperdícios de produção. Isso também me permite obter Coisas mais duráveis e de mais qualidade do que eu poderia pagar se as comprasse novas. E cuido delas com carinho.”
“Além disso, a maioria dos cientistas estima que somente 1% das espécies existentes nas florestas tropicais foram identificadas e pesquisadas quanto às suas propriedades benéficas para o homem. É uma ironia que esses inestimáveis mananciais de substâncias químicas sejam eliminados em nome do ‘progresso’ e do ‘desenvolvimento’. Uma estratégia muito mais sensata seria protegê-los.”
“John Muir, pioneiro na defesa das florestas, disse certa vez: ‘Quando tentamos compreender algo isoladamente, descobrimos que está ligado a todo o resto do universo.’ Eu já tinha ouvido a citação, mas achava que era metafórica. Na verdade, ele falava literalmente: todo o planeta está interligado. As florestas aos rios, os rios aos oceanos, os oceanos às cidades, aos alimentos, a nós.”
“Nosso status poderia ser medido por bondade, experiência e sabedoria, e não pelas roupas que vestimos, os carros que temos na garagem e o tamanho das nossas casas. Sejamos criativos!”
Uma Visão para o Futuro
“Sabemos qual é a aparência do mundo atual: caos climático, substâncias tóxicas em todos os corpos, desigualdade social crescente, florestas e água potável desaparecendo, isolamento social e redução gradual da felicidade.”
“Aceitar e viver com o suficiente e não com o excesso significa um retorno ao que é, culturalmente falando, a moradia do homem: a ordem ancestral da família, a comunidade, o trabalho digno e a vida decente; a uma reverência pela habilidade, a criatividade e criação; a um ritmo diário que nos permita contemplar o pôr do sol e passear pela beira-mar; a comunidades em que vale a pena passar a vida; e a locais que preservem a memória das gerações passadas.”
“É 2030. Ouvem-se o som de risos e o canto de pássaros na cidade. Crianças brincam por todo lado nas ruas […] adultos […] cuidam de suas hortas plantadas em antigos estacionamentos e gramados. As áreas residenciais de alta densidade são construídas com a vida da comunidade em mente: ciclovias, locais públicos sombreados, barracas de frutas e vegetais e aconchegantes cafés dominam as ruas.”
