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Resenha: O desaparecimento da infância

SOBRE O LIVRO

O Desaparecimento da Infância foi escrito pelo conceituado crítico cultural e acadêmico Neil Postman e publicado pela primeira vez em 1982. Postman é conhecido por suas reflexões críticas sobre a mídia, a tecnologia e a educação na sociedade contemporânea.

Nesse livro, Postman argumenta que o conceito de infância, como o entendemos hoje, foi fortalecido com a invenção da imprensa e a disseminação da alfabetização. Ele sugere que a mídia eletrônica, especialmente a televisão, desempenha um papel fundamental no “desaparecimento” dessa fase da vida. Isso ocorre porque, por meio da televisão, as crianças têm fácil acesso a conteúdos prejudiciais à sua formação, como material erótico e violento, o que dilui a linha entre o mundo infantil e o mundo adulto. Vale ressaltar que o livro foca apenas na influência da televisão, pois, na época do lançamento, redes sociais online ainda não existiam. Hoje, com a popularização dessas redes, é ainda mais comum que as crianças sejam negativamente influenciadas pela mídia.

O Desaparecimento da Infância é amplamente reconhecido como um texto essencial nos estudos de mídia e educação. O livro foi traduzido para diversas línguas e é frequentemente citado em debates acadêmicos e educacionais. As discussões propostas por Postman são ainda mais relevantes na era digital, em que redes sociais e outras plataformas virtuais exercem grande influência sobre as crianças.

Capa do livro

POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO

O Desaparecimento da Infância é rico em exemplos do cotidiano, fazendo-nos refletir sobre aspectos que são tão comuns que muitas vezes deixamos de questionar. Questões como vestuário, hábitos alimentares, a profissionalização precoce de esportistas, o fim das brincadeiras infantis e o impacto da mídia são analisados para defender a tese de que vivemos em uma sociedade que não valoriza a infância.

Outro ponto positivo é a organização do conteúdo e a linguagem empregada. A sequência lógica dos capítulos ajuda a comparar a forma como a infância era tratada em diferentes épocas, além de permitir uma compreensão clara dos motivos que levaram ao “desaparecimento” da infância nos dias de hoje. O estilo direto e simples torna o livro acessível até mesmo para quem não está acostumado com o ambiente acadêmico.

A atualidade da obra é inegável. Embora tenha sido lançado na década de 1980, sua importância só aumentou com o avanço das tecnologias de comunicação, o surgimento da internet e das redes sociais. O que Postman descreveu no passado não apenas continua pertinente, mas também se intensificou no cenário contemporâneo.

Portanto, vale a pena conhecer O Desaparecimento da Infância. O livro oferece uma reflexão extremamente proveitosa para pais, educadores e todos os que se preocupam com o bem-estar dos jovens.

Infância conectada: as telas podem dissolver as fronteiras entre o mundo infantil e o adulto.

TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR

Este livro nasceu da minha percepção de que a ideia de infância está desaparecendo, e numa velocidade espantosa.

No momento em que escrevo, garotas de doze e treze anos estão entre as modelos mais bem pagas dos Estados Unidos. Nos anúncios de todos os meios de comunicação visual são apresentadas ao público como se fossem mulheres adultas espertas e sexualmente atraentes, completamente à vontade num ambiente de erotismo

Das atitudes para com as crianças na Antiguidade, sabemos muito pouco […] Sabemos que entre os gregos, ainda na época de Aristóteles (quarto século antes de Cristo), não havia restrições morais ou legais à prática do infanticício

Na Idade Média, a ideia de esconder os impulsos sexuais era estranha aos adultos, e a ideia de proteger as crianças dos segredos sexuais, desconhecida. Tudo era permitido na presença delas: linguagem vulgar, situações e cenas escabrosas; elas já tinham visto e ouvido de tudo.

Os mais velhos também se lembram do tempo em que havia uma grande diferença entre roupas de crianças e de adultos. Na última década a indústria de roupas infantis sofreu mudanças tão aceleradas que, para todos os fins práticos, as “roupas infantis” desapareceram. Tudo indica que a ideia lançada por Erasmo e depois plenamente aceita no século dezoito, isto é, que crianças e adultos necessitam de tipos diferentes de trajes, é agora rejeitada por ambos os grupos.

Poderíamos dizer que uma das principais diferenças entre um adulto e uma criança é que o adulto conhece certas facetas da vida – seus mistérios, suas contradições, sua violência, suas tragédias, cujo conhecimento não é considerado apropriado para as crianças e cuja revelação indiscriminada é considerada vergonhosa.

O fato, porém, é que a televisão funciona praticamente vinte e quatro horas sem parar, que sua forma tanto física quanto simbólica torna desnecessário – na verdade impossível – segregar sua audiência, e que exige um suprimento contínuo de informações novas e interessantes para cativar e segurar sua audiência. Assim, a televisão tem que fazer uso de todos os tabus existentes na cultura.

Como Damerall salienta, “nenhuma criança assim como nenhum adulto fica mais hábil em ver televisão passando mais tempo diante dela. As habilidades exigidas são tão elementares que ainda não se ouviu fala de capacidade de ver televisão” (A situação é bem diferente com a leitura e a escrita. Quanto mais uma pessoa lê e quanto mais uma pessoa escreve, mais hábil fica nessas atividades).

´Já que tanto adultos como crianças podem compreender facilmente a maior parte do que passa na televisão (e por extensão nas redes sociais atualmente), a televisão destroi a linha divisória entre infância e idade adulta’.

[…] Se despejarmos sobre as crianças uma vasta quantidade de material adulto da pesada, a infância não poderá sobreviver. Por definição a idade adulta significa mistérios desvendados e segredos descobertos. Se desde o começo as crianças conhecerem os mistérios e os segredos, como as distinguiremos de outro grupo?

A violência que é mostrada na televisão (e atualmente também na internet) não é mediada pela voz de uma mãe, não é nem um pouco modificada para se adaptar à criança, não é orientada por nenhuma teoria do desenvolvimento infantil.

A televisão (e hoje em dia a internet) despreza a retórica da transação comercial e trabalha principalmente com os símbolos e a retórica da religião. Na verdade, acredito que é inteiramente justo concluir que os comerciais de televisão são uma forma de literatura religiosa.

A fé em ideias tradicionais de Deus foi substituída por uma crença na força enobrecedora da tecnologia.

A “adultificação” das crianças na televisão é seguida de perto no cinema. Filmes como Carrie, a estranha, A Profecia, O Exorcista, A Lagoa Azul têm em comum uma concepção de criança não diferenciada dos adultos na orientação social, na linguagem e nos interesses.

Se olharmos de perto o conteúdo da TV, podemos encontrar não só a ascensão da “criança adultificada” mas também a ascensão do “adulto infantilizado”. [..] Os adultos na televisão não levam a sério o seu trabalho (se é que trabalham), não cuidam de crianças, não têm opção política, não praticam nenhuma religião, não representam nenhuma tradição, não têm projetos ou planos sérios, não têm conversas demoradas e em nenhuma circunstância aludem a qualquer coisa que não seja familiar a uma pessoa de oito anos.

O adulto-criança pode ser definido como um adulto cujas potencialidades intelectuais e emocionais não se realizaram e, sobretudo, não são significativamente diferentes daquelas associadas às crianças.

Havia um tempo em que se supunha que os adultos possuíam padrões mais altos do que as crianças na concepção do que é e não é próprio para comer. (mas hoje em dia, tanto crianças e adultos gostam muito de fast food, por exemplo)

Hoje em dia, o que diverte as crianças diverte também o adulto. Por exemplo, filmes baseados em histórias em quadrinhos, que no passado seriam considerados uma diversão infantil, também é bastante apreciado por adultos.

O nível elevado de atividade sexual entre crianças tem sido muito bem documentado. [..] A televisão mantém toda a população num estado de grande excitação sexual.

A civilização não pode existir sem o controle de impulsos, especialmente o impulso para a agressão e satisfação imediata. Estamos em constante perigo de sermos possuídos pela barbárie, de sermos assolados pela violência, pela promiscuidade, pelo instinto, pelo egoísmo.

Para a preservação da infância, os pais devem controlar o acesso da mídia aos filhos. Como? Primeiro, limitando o tempo de exposição das crianças à mídia. Segundo, monitorando aquilo a que estão expostas e fornecendo-lhes continuamente uma crítica corrente dos temas e valores da mídia.