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Resenha do livro Caninos brancos

SOBRE O LIVRO

Escrito por Jack London, Caninos Brancos foi publicado pela primeira vez em 1906. O autor é conhecido por suas histórias ambientadas em regiões selvagens e por sua habilidade de explorar a relação entre o homem e a natureza. A escrita de London cativa pela simplicidade e pela capacidade de retratar emoções profundas, criando narrativas atemporais.

O livro conta a história de Caninos Brancos, um lobo mestiço que enfrenta vários desafios ao ser retirado de seu habitat natural e introduzido na sociedade humana. A trama, repleta de aventuras e reviravoltas, aborda temas como sobrevivência, dominação, liberdade e a complexa relação entre homens e animais. É um retrato realista das forças naturais e das transformações que o contato com os humanos podem causar nos animais.

Ao longo dos anos, Caninos Brancos foi adaptado diversas vezes para o cinema e para o teatro. Essas adaptações ajudaram a manter a obra viva em diferentes culturas e gerações. Uma das adaptações cinematográficas mais conhecidas foi lançada em 1991, pela Disney.

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POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO

Gostei muito de Caninos Brancos e acredito que você também vai se encantar com a história, mesmo que não tenha grande afinidade com cães.

O livro é incrivelmente realista, destacando os desafios que os animais enfrentam tanto em seu habitat natural quanto em interações com humanos. Um dos pontos mais marcantes é como a obra explora a relação complexa entre homens e animais, mostrando que o comportamento dos bichos muitas vezes reflete o tratamento que recebem. Se um animal é criado com carinho e amor, ele tende a retribuir de forma positiva. Por outro lado, um ambiente de hostilidade e maus-tratos pode transformá-lo em uma criatura agressiva e até perigosa.

A narrativa de Jack London é envolvente e habilmente conduzida. A história é contada pela perspectiva de Caninos Brancos, acompanhando sua trajetória desde filhote até a velhice. Essa escolha narrativa ensina muito sobre a luta pela sobrevivência e a relação dos bichos com a civilização.

A leitura prende a atenção do início ao fim, com uma mistura de ação, aventura, drama e reviravoltas emocionantes. É impossível não ficar ansioso para saber o que acontecerá a seguir. No entanto, é importante mencionar que o livro possui passagens tristes e até revoltantes. Algumas cenas mostram a crueldade humana em sua pior forma, como nas descrições de rinhas de cães em que Caninos Brancos foi forçado a lutar, apenas para gerar lucro para seus donos. Uma das cenas mais impactantes envolve a batalha do protagonista contra um buldogue, que é descrita com uma intensidade arrebatadora.

Apesar disso, o livro também traz momentos de superação e esperança, ressaltando como os cães podem ser leais e companheiros valiosos quando tratados com amor e respeito. A leitura, especialmente com os comentários introdutórios que aparecem na edição da Penguin Companhia das Letras, nos ajuda a compreender melhor a natureza canina. A obra nos ensina a tratar os animais com carinho e respeito, mas sem atribuir a eles as mesmas características emocionais e intelectuais dos humanos.

Caninos Brancos é uma leitura que recomendo a todos. Ele não só proporciona uma história emocionante como também nos leva a refletir sobre nossa relação com os animais e o mundo natural. Se você gosta de narrativas profundas e instigantes, esse livro certamente é para você.

Para ficar ainda mais motivo a ler Caninos Brancos, assista a dois vídeos com comentários interessantes sobre o livro:

TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR (Retirados da edição publicada pela Penguin Companhia Das Letras em 2014)

Trechos da introdução do livro, feita pelo escritor e tradutor Daniel Galera

Mesmo assim, a antropomorfização (ou seja, o ato de atribuir características humanas a seres que não são humanos, como os animais) das atitudes e dos pensamentos dos cães costuma extrapolar os limites da sensatez Não por acaso, o processo de adestramento de um cão pode parecer um tanto irracional e violento aos olhos de um dono apegado a seu bicho e desinformado a respeito da natureza canina.

Muitas pessoas ficam horrorizadas com uma cadela montando em um macho com rudeza e insistência, a fim de afirmar sua superioridade, ou com a eventual coprofagia (ato de consumir fezes) praticada por seus lindos animaizinhos.

É difícil para muitos humanos compreender a importância do comportamento de matilha e da hierarquia de força para os cães, e muitos donos ficam tristes ou irritados quando um adestrador conclui que um cãozinho prepotente e mimado se tornou o verdadeiro líder da família, manipulando o amor e a devoção de seus donos para obter sempre o que deseja.

O focinho achatado do buldogue faz com que ele passe a vida tendo sérias dificuldades para respirar, e o tamanho avantajado de sua cabeça praticamente obriga que os partos dessa raça sejam feitos com cirurgia cesariana. Hoje em dia, quando a escolha por uma raça de cão tende a ser influenciada por aspectos estéticos ou modismos, é fácil esquecer que as mais de duzentas raças oficiais existentes são resultado de cruzamentos selecionados ao longo de séculos, quase sempre tentando adequar os cães selvagens de outrora a tarefas específicas envolvendo caça, pastoreio, guarda ou companhia. Ao longo do tempo, muitos padrões de raça se descolaram dessas finalidades práticas e passaram a atender a expectativas puramente estéticas, que nem sempre levam em conta o bem-estar e a saúde do animal.

Trechos da história propriamente dita

Deitou-se na neve, depositando a perdiz-branca ao seu lado, e ficou espiando por entre os galhos de um pinheiro baixo e assistindo ao jogo da vida que se desenrolava diante dele: a fêmea de lince à espera e o porco-espinho à espera, ambos determinados a viver. Era um jogo curioso, pois o modo de viver para um era comer o outro, ao passo que o modo de viver para o outro era não se deixar comer. Enquanto isso, vigiando às escondidas, o velho lobo Caolho também desempenhava um papel no jogo, à espera de um insólito golpe de sorte que o ajudasse na caça à carne, que era o seu modo de viver. Meia hora se passou, depois uma hora, e nada aconteceu. A bola de espinhos poderia ser uma pedra de tão imóvel; a fêmea de lince parecia uma estátua de mármore; e o velho Caolho dava a impressão de estar morto. No entanto, todos os três estavam tomados por uma tensão de viver que era quase dolorosa, e dificilmente viria a acontecer de os três estarem mais vivos do que estavam naquele momento, na sua aparente petrificação

Assim, o filhote cinzento conhecia o medo, embora não soubesse de que substância o medo era feito. Talvez o filhote o aceitasse como uma das limitações da vida, pois já havia aprendido que essas limitações existiam. Já conhecia a fome e, quando não tinha como aplacá-la, sentia-se limitado. O obstáculo rígido constituído pela parede da caverna, a cutucada forte do focinho da mãe, a patada que o derrubava, a fome sem alívio de vários períodos de escassez tinham lhe ensinado que nem tudo era liberdade no mundo, que na vida havia limitações e restrições. Esses limites eram leis. Obedecer a elas era uma forma de escapar da dor e de buscar felicidade

Ele não analisava a questão dessa maneira racional como os seres humanos fazem. Simplesmente classificava as coisas que machucavam e as que não machucavam. E, depois dessa classificação, passava a evitar as coisas que machucavam, as limitações e as restrições, a fim de aproveitar os prazeres e as gratificações da vida.

Com base nessa classificação, o lobinho deduziu a lei. O objetivo da vida era conseguir carne. A vida em si era carne. A vida se alimentava de vida. Existiam aqueles que comiam e aqueles que eram comidos. Então a lei era: COMA OU SEJA COMIDO. O lobinho não formulou a lei em termos claros e precisos nem teceu considerações morais a respeito dela. Na verdade, nem mesmo pensou sobre a lei; simplesmente vivia de acordo com ela. Vivia a lei sem nem sequer pensar nela.

Ele era um matador. Seu único alimento era a carne, a carne de coisas vivas que fugiam a toda velocidade à sua frente, alçavam voo, trepavam em árvores, se escondiam debaixo da terra ou o encaravam e lutavam com ele, ou viravam o jogo e corriam atrás dele.

Diferentemente de todos os animais que ele já havia encontrado, os homens não mordiam nem arranhavam. Em vez disso, reforçavam sua força vital com o poder de coisas mortas. Coisas mortas trabalhavam para eles. Assim, paus e pedras, manejados por aquelas estranhas criaturas, cruzavam o ar como coisas vivas e causavam dolorosos machucados nos cachorros.

Odiado tanto por seus semelhantes quanto pela espécie humana, indomável, constantemente agredido e sempre pronto a agredir, Caninos Brancos teve um desenvolvimento rápido e desigual. Aquele não era um solo propício para que a generosidade e o afeto florescessem. De coisas como essas ele não tinha nem o mais vago vislumbre. O código de conduta que aprendeu consistia em obedecer aos fortes e oprimir os fracos. […] O desenvolvimento de Caninos Brancos se deu na direção do poder e da força. A fim de enfrentar o perigo constante de ser ferido e até mesmo aniquilado, acabou desenvolvendo excessivamente suas habilidades predatórias e defensivas. Seus movimentos se tornaram mais ágeis e suas patas mais velozes que os dos outros cães; ele se tornou mais astuto, mais implacável, mais flexível, mais esguio, com músculos e tendões que pareciam de aço, mais resistente, mais cruel, mais feroz e mais inteligente. Precisou se tornar todas essas coisas ou não teria conseguido se defender nem sobreviver naquele ambiente hostil.

Seu ponto de vista era sombrio e materialista. O mundo, tal como ele o via, era cruel e brutal; era um mundo sem ternura, onde carinho, afeto e as luminosas alegrias do espírito não existiam

Claro que Caninos Brancos só sentia essas coisas. Não tinha consciência delas. Contudo, é com base em sentimentos e sensações, mais do que em pensamentos, que os animais costumam agir;

Dessa forma, ele acabou brigando com cachorros de todos os tamanhos e raças. Era uma terra selvagem, os homens eram selvagens, e as brigas normalmente eram até a morte.

“Está vendo como ele não tira os olhos do porrete?”, disse Matt. “Isso é bom sinal. Ele não é bobo. Não vai se atrever a me atacar enquanto eu estiver com o porrete na mão. Doido varrido ele não é, com certeza.”

“Coitado”, Scott murmurou, cheio de pena. “O que ele precisa é de alguma demonstração de generosidade humana”, acrescentou, virando-se e entrando na choupana.

Nessa época, o assunto que dominava os jornais era a ousada fuga de um prisioneiro da penitenciária de San Quentin. Ele era um homem feroz. Tinha sido malfeito na fabricação. Não havia nascido muito certo, e a maneira como fora moldado pelas mãos da sociedade não o ajudara nem um pouco. As mãos da sociedade são brutas, e aquele homem era um exemplo notável do trabalho manual da sociedade. Ele era uma besta-fera — na verdade, era uma besta humana, porém tão terrível que a melhor forma de caracterizá-lo seria como uma fera carnívora.