Como eu fiquei sabendo de Afuá
O ano era 2017. Naquela época, estava acontecendo uma campanha especial de evangelização na região amazônica, promovida pelas Testemunhas de Jeová. Pessoas de vários locais do Brasil foram convidadas a apoiar. Quem quisesse participar podia escolher uma das cidades listadas para essa campanha.
Eu e minha esposa, então, começamos a pesquisar sobre algumas dessas cidades. Foi assim que conheci Afuá, no Pará. Acabei não indo para lá — optamos por Cachoeira do Arari, que também fica na Ilha de Marajó, no Pará. Passamos cinco dias por lá, e posso dizer que foi uma experiência culturalmente muito rica para nós dois.
Além de colaborar com as atividades de evangelização, tivemos contato com uma realidade bem diferente da que estávamos acostumados: o açaí consumido sem açúcar e como parte do almoço, pratos típicos como tacacá e pato no tucupi, o transporte fluvial como principal meio de locomoção… Enfim, aprendemos muito!
Na época, não consegui visitar Afuá, mas algo me chamou a atenção: descobri que lá é proibido o tráfego de veículos motorizados, como carros e motos. Na cidade, só se anda a pé ou de bicicleta! Por isso, Afuá é conhecida como “a cidade das bicicletas”. Fiquei curioso e comecei a pesquisar mais sobre o lugar, já que eu gosto muito de andar de bicicleta.
Foi assim que encontrei o documentário Afuá – Cidade das Bicicletas, produzido e apresentado pela arquiteta e jornalista Renata Falzoni. Também descobri o livro O Brasil que Pedala – A Cultura das Bicicletas nas Cidades Pequenas, organizado por André Soares e André Guth. Em breve, vou escrever um post sobre esse livro também. Por enquanto, seguem meus comentários sobre o documentário.
SOBRE O FILME
Lançado em 2019, Afuá – Cidade das Bicicletas é um documentário dirigido pela Renata Falzoni e produzido pela equipe do portal Bike é Legal. O filme tem apenas 24 minutos, mas consegue, nesse tempo, nos transportar para a vida em Afuá, uma cidade construída sobre palafitas na Ilha de Marajó, onde veículos motorizados são proibidos e a bicicleta é o principal meio de transporte. A população de Afuá é estimada atualmente em mais de 40 mil habitantes.
O documentário mostra como a cidade se organiza a partir dessa escolha — ou necessidade — e destaca a beleza e a simplicidade da mobilidade ativa. Sem carros, Afuá oferece um ambiente mais humano, seguro e ecologicamente correto.
Além de apresentar o cotidiano dos moradores e a importância da bicicleta para a vida na cidade, o filme convida quem assiste a refletir sobre os impactos negativos da motorização e a pensar em alternativas mais sustentáveis para as cidades.

POR QUE EU GOSTEI DO FILME
Gostei do filme, primeiro, por ser relativamente curto — só 24 minutos —, mas mesmo assim conseguir apresentar Afuá de maneira muito clara e interessante. A narração é tranquila, as entrevistas são bem conduzidas e a cidade é mostrada com muita sensibilidade.
O documentário não fala só das bicicletas. Ele também destaca aspectos culturais importantes da região, como a culinária. O açaí, por exemplo, ganha uma atenção especial: o filme explica como ele é plantado, processado, vendido e consumido — aliás, bem diferente de como a maioria de nós consome em outras regiões do Brasil.

Gostei também das entrevistas com autoridades locais e moradores. A gente percebe o gosto que eles têm pelo lugar em que vivem, além de conhecer um pouco das soluções criativas que adotam no dia a dia.
Outro ponto que o documentário mostrou é que praticamente tudo na cidade gira em torno da bicicleta: elas são usadas para transportar cargas pesadas, vender produtos, prestar serviços de saúde, segurança e transporte de passageiros. Existem bicicletas adaptadas para funcionar como ambulância, táxi, carro de bombeiro, entre outras. É uma variedade impressionante de veículos movidos a propulsão humana — e todos produzidos localmente!

Gostei, ainda, da proposta do documentário, que é justamente incentivar o uso da bicicleta. Como o filme destaca, a população de Afuá, de modo geral, tem baixa renda, mas a qualidade de vida é alta. O índice de acidentes de trânsito é praticamente inexistente, a poluição é baixíssima e a criminalidade está entre as menores do Brasil.
Além disso, o uso generalizado da bicicleta ajuda a diminuir as desigualdades sociais e econômicas, pois ela faz parte do cotidiano de todos — autoridades, comerciantes, jovens, idosos e crianças.
Claro que, como toda cidade, Afuá também tem seus problemas e desafios. Mas o exemplo de um lugar onde a bicicleta é o meio de transporte principal nos inspira a pensar que é possível, sim, em várias situações, optar por formas de mobilidade mais baratas, saudáveis e que não prejudicam o meio ambiente.
Vale a pena assistir a esse documentário!
