SOBRE O LIVRO
A Literatura Como Remédio: Os clássicos e a saúde da alma, tem como autor Dante Gallian e foi publicado pela Editora Martin Claret em 2017. Neste livro, o autor, que é doutor em História Social e professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), discute o poder terapêutico da literatura.
DESCOBRINDO O LIVRO A LITERATURA COMO REMÉDIO
Enquanto aguardava ser atendido em um consultório odontológico, comecei a folhear a edição de fevereiro de 2017 da revista Vida Simples. Deparei-me com uma ótima entrevista entre o professor Dante Gallian e a jornalista Ana Holanda. Vários comentários do professor me chamaram a atenção, especialmente sua visão de que nossa sociedade está passando por um forte processo de desumanização. Segundo ele, a leitura de bons livros pode nos ajudar a combater essa tendência, pois estimula a reflexão e a empatia.
Gallian destacou que, de um modo geral, os cursos da área de saúde focam excessivamente em aspectos técnicos, negligenciando o fator humano. De fato, muitos profissionais da área saúde tratam os pacientes como se fossem máquinas que precisam ser consertadas. O resultado é uma postura fria em relação ao paciente. Por exemplo, são frequentes os relatos de médicos que se limitam a analisar dados de exames e a prescrever medicamentos, desconsiderando o impacto de questões emocionais na saúde física.
O professor mencionou o testemunho de estudantes da área de saúde que se tornaram ouvintes melhores após dedicarem tempo à leitura de clássicos da literatura. Na sua opinião, um livro não se torna um clássico por acaso; clássicos são aqueles livros que tratam de temas profundos ligados à essência humana. Mesmo com a passagem do tempo, essas obras permanecem valiosas. Bons livros, portanto, tem o poder de humanizar e de fortalecer nossa capacidade de reflexão.
Gallian também destacou na entrevista que vivemos em uma sociedade violenta e insensível. Nesse contexto, a literatura pode servir como um refúgio. Por meio da leitura de bons livros, podemos viajar no tempo, explorar diversos lugares e, acima de tudo, fazer uma viagem em nossa alma, ou seja, em íntimo. Por isso, clássicos da literatura servem como um “remédio” para a alma.
Passei a utilizar essa entrevista com meus alunos do ensino médio, e a reação tem sido bastante positiva. Muitos deles comentam como a entrevista os ajudou a refletir sobre questões que nunca tinham pensado antes.
Toda essa experiência me motivou a ler o livro citado na entrevista, “A Literatura Como Remédio”, e a considerar um pouco mais as ideias de Dante Gallian sobre o poder terapêutico da literatura.

POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO
O livro “A Literatura Como Remédio” destaca a importância de clássicos como “Dom Quixote”, “Hamlet” e “Crime e Castigo”. Essas são obras de valor inquestionável, mas que, infelizmente, têm recebido pouca atenção na atual era digital . O autor aprofunda a opinião apresentada na entrevista citada, afirmando que o mundo atual está repleto de tecnologia, mas vazio de conteúdo humano. Na visão de Dante, bons livros, em especial os clássicos da literatura, podem ajudar uma pessoa a se contrapor a essa tendência contemporânea.
Achei particularmente interessante a visão do autor sobre determinados setores do mundo acadêmico que muitas vezes transformam grandes livros em meros objetos de estudo científico. Alunos de cursos de Ciências Humanas e de Letras, por exemplo, geralmente não são incentivados a avaliar as lições de um livro para suas vidas pessoais. A leitura guiada por um interesse meramente teórico ou técnico não se apresenta como uma experiência criativa e libertadora. Concordo plenamente com essas observações. O que frequentemente se vê no meio acadêmico são debates teóricos, em vez de reflexões sobre a importância das obras para o dia a dia. Isso contribui para a visão comum entre os estudantes de que ler livros mais antigos é sempre chato, inútil e difícil. O livro também deu para mim dicas valiosas de como promover discussões mais proveitosas sobre textos literários em minhas aulas.
TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR
Literatura é remédio e é resistência. Remédio claro, pois tenta nos restituir a saúde da reflexão e nos retirar da melancolia da irrelevância, da banalidade do ser, da falta de sentido e de pensamento que se tornaram gêmeos xifópagos do cotidiano líquido contemporâneo. Literatura de alto padrão e bem lida é um combate à infecção grave do nosso mundo doente e violento (Leandro Karnal, autor do texto de apresentação do livro).
“Desocupado leitor…” É assim que Miguel de Cervantes iniciava o prólogo de uma das mais célebres obras literárias da história universal: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha. Quatrocentos anos depois, neste mundo marcado pelo imediatismo e pelo produtivismo, fico pensando se ainda seria possível iniciar um livro fazendo um convite ao “desocupado leitor” de Cervantes… Pois, na verdade, hoje estamos todos tão extremamente ocupados… Extremamente ocupados e extremamente apressados.
“Nossos tempos estão desnorteados”, dizia o Hamlet de Shakespeare, há também quase quatrocentos anos. De lá para cá, esse desnorteamento aumentou e a humanidade, na mesma medida em que encheu a terra de conquistas e mazelas da ciência e da tecnologia, se viu esvaziada no território da alma, do sonho, do mundo interior. E nesse esvaziamento desumanizador, que tantas e tantas patologias tem provocado, homens e mulheres procuram desesperadamente remédios que lhes devolvam a saúde perdida.
Em primeiro lugar, eram as narrativas que delineavam as identidades das comunidades, estabelecendo uma origem e uma trajetória específica que as distinguia e, muitas vezes, demarcavam seu destino histórico. O exemplo do povo hebreu é talvez um dos mais emblemáticos e conhecidos: fundamentados nas narrativas que, em certo momento de sua história, foram decantadas nos escritos que formaram os livros da Bíblia, os hebreus estruturaram sua identidade como o povo escolhido por Iahweh, depositário de uma aliança e de uma vocação histórica de alcance universal na perspectiva da salvação da humanidade.
Assim, neste contexto de embotamento afetivo e moral em que estamos vivendo, a literatura se [apresenta] como um meio — alguns dirão até mesmo o único — de nos reencontrarmos com as fontes humanas da nossa existência e nos humanizarmos. Isso porque ela, em primeiro lugar, nos desperta emoções — ela nos afeta — nos lembra que estamos vivos e que não somos meros zumbis encerrados num ciclo vicioso de produção e consumo.
Ao oferecer um conhecimento diferente do conhecimento convencional ou científico, a literatura possibilita compreender os comportamentos e motivações humanas de uma forma mais ampla e profunda, que vai além da visão algorítmica e que incorpora a emoção, a empatia e a intuição.
O texto literário me fala de mim e dos outros; provoca minha compaixão; quando leio eu me identifico com os outros e sou afetado por seu destino; suas felicidades e seus sofrimentos são momentaneamente os meus.
Parece que foi Jorge Luis Borges quem costumava dizer que só há um prazer maior do que o da leitura de um bom livro: o da sua releitura. Voltar à história, à trama, aos personagens, principalmente quando a narrativa nos cativou, é uma oportunidade única de revisitar aquilo que nos tocou especialmente, assim como descobrir novos aspectos e revelações que uma primeira leitura nem sempre permite. Quando permitimos estabelecer uma espécie de caso de amor com o livro, voltar uma e outra vez a ele não tem nada de árido ou enfadonho, muito pelo contrário. Quem não deseja estar mais uma vez com o objeto ou pessoa amada? E quanta riqueza se extrai dessas visitas repetidas e constantes!
O esvanecimento da alma, o apagamento de si mesmo, fenômeno muito característico do processo de desumanização, deriva, portanto, do abandono da experiência da reflexão. Inversamente, qualquer proposta séria de humanização, que almeja devolver ao homem sua alma e, com ela, a sua saúde existencial, gravemente comprometida, requer, necessariamente, recolocá-lo diante do espelho; envolvê-lo no processo de reflexão.
