Milhões, talvez bilhões de pessoas em todo o mundo já assistiram à animação da Disney Pinóquio, lançada em 1940. Mesmo quem nunca viu esse filme certamente já ouviu falar do boneco de madeira que queria se tornar um menino de verdade e cujo nariz crescia toda vez que ele contava uma mentira. Muitos dos que hoje são adultos ou idosos, inclusive eu, com certeza, na infância, vez por outra davam uma olhada no espelho para conferir como estava o nariz depois de uma mentirinha…
Mas quem assistiu apenas ao filme da Disney e acha que conhece a verdadeira história de Pinóquio está bem enganado. A obra original é bem diferente da versão cinematográfica mais famosa.
Neste post, vamos falar sobre a história original do livro As Aventuras de Pinóquio, escrito no século XIX, e mostrar as principais diferenças entre o texto literário e a adaptação da Disney.
Diferenças entre o livro As Aventuras de Pinóquio e o filme da Disney
Antes de entrar diretamente nas diferenças, vale trazer algumas informações gerais sobre o livro e o filme.
O livro As Aventuras de Pinóquio foi escrito no século XIX pelo italiano Carlo Collodi. A obra faz sucesso até hoje e, segundo dados recentes, é o terceiro livro mais traduzido da história, ficando atrás apenas da Bíblia e de O Pequeno Príncipe (leia meu post sobre os livros mais traduzidos da história — é só clicar aqui).
O filme da Disney contribuiu muito para a internacionalização da história, que originalmente foi pensada para o público italiano. A animação é bastante elogiada e considerada a adaptação de maior sucesso do livro. Mesmo sendo um filme antigo, lançado em 1940, sua qualidade técnica e artística ainda impressiona. Em 1941, a animação ganhou dois prêmios Oscar: Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção Original, tornando-se o primeiro filme de animação da história a vencer um Oscar competitivo (não honorário). Realmente, vale muito a pena assistir ou rever esse clássico. É só clicar na imagem abaixo.

Pinóquio no filme: uma história leve e otimista
No filme da Disney, Pinóquio é apresentado como um garotinho inocente, facilmente enganado por uma raposa e um gato que falam. Gepeto cria apenas um boneco e, depois de fazer um pedido aos céus, o boneco ganha vida e passa a falar. O tom da animação é leve, moralizante e acolhedor, pensado para o público infantil e familiar.
Pinóquio no livro: uma história mais dura e sombria
Já no livro original, embora também haja a intenção de ensinar valores morais a crianças e adolescentes, o tom da narrativa é bem mais severo — e, em vários momentos, bastante sombrio.
Na obra de Collodi, Gepeto se depara com um pedaço de madeira que falava e leva um grande susto. A partir desse pedaço de madeira, ele constrói um boneco que já nasce com o dom da fala. Ou seja, Pinóquio já falava enquanto ainda era apenas um pedaço de madeira, algo bem diferente do que ocorre no filme.
Além disso, Pinóquio é retratado como um personagem egoísta, ingrato e até perverso. Em um dos episódios mais chocantes do livro, ele mata o Grilo Falante a sangue-frio, simplesmente porque se irrita com seus conselhos. Gepeto, por sua vez, sofre miséria, abandono e privações por causa das atitudes ruins do boneco.
O livro não enaltece a violência, mas apresenta episódios bastante duros, como a cena em que a Raposa e o Gato tentam matar Pinóquio por enforcamento, entre outros momentos perturbadores.

Vale a pena ler a história original de Pinóquio?
Vale muito a pena conhecer a verdadeira história de Pinóquio por meio da leitura da obra original do século XIX. A narrativa é fluida, de leitura fácil, apesar da época em que foi escrita. Há traduções em português que tornam a leitura bastante agradável.
Além disso, a história prende a atenção e ensina valores morais sólidos não apenas para crianças e adolescentes, mas também para adultos. Mais do que isso, a obra convida a reflexões profundas sobre amadurecimento, responsabilidade e consequências das escolhas.
Não é à toa que o livro tem enorme repercussão mundial. É difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar de personagens como Pinóquio e Gepeto. A obra é citada, inclusive, por revistas internacionalmente conhecidas, como a Despertai.
Vale a pena, portanto, conhecer melhor esse grande clássico da literatura e compará-lo com adaptações para o cinema, como a famosa versão da Disney, lançada em 1940.
TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR
1. A Rebeldia e os erros de Pinóquio
“— Se não quer ir à escola, por que pelo menos não aprende um ofício para ganhar o pão honestamente? — Quer mesmo saber? — replicou Pinóquio, que começava a perder a paciência. — Porque, de todos os ofícios do mundo, só um me interessa: o ofício de comer, beber, dormir, brincar e passar o dia inteiro vadiando.”
“O professor o advertia todos os dias, e também a boa Fada vivia a lhe dizer e repetir: — Cuidado, Pinóquio! Essas más companhias da escola cedo ou tarde o farão perder o amor pelo estudo e podem até mesmo lhe causar uma grande desgraça. — Não tem perigo! — respondia o boneco, dando de ombros e batendo com um dedo no meio da testa, como quem diz: ‘Aqui tem muito juízo!’.”
2. As lições de vida que a história ensina
“Ai dos meninos que desobedecem aos pais e fogem de casa por capricho. Nunca encontram a paz neste mundo e, cedo ou tarde, acabam se arrependendo amargamente.”
“Eu perdi! — respondeu Pinóquio; mas era mentira, porque ele as guardara no bolso. Ao dizer essa mentira, seu nariz, que já era comprido, de repente cresceu mais dois dedos. — É fácil reconhecer as mentiras, meu menino, porque elas são de dois tipos: as mentiras de pernas curtas e as mentiras de nariz comprido; as suas, pelo visto, são das de nariz comprido.”
“A Fada deixou o boneco chorar e berrar por bem uma meia hora, desesperado por causa daquele nariz que não passava pela porta do quarto. Ela fez isso para dar uma severa lição a Pinóquio e para que ele se emendasse do feio vício de mentir, o vício mais feio que uma criança pode ter.”
“Agora (tarde demais!) sei muito bem que, para juntar honestamente algum dinheiro, é preciso ganhá-lo com o trabalho das próprias mãos ou com a inteligência da própria cabeça.”
“A fome, meu filho, não é razão para nos apropriarmos do que não nos pertence…”
“Neste mundo todos temos que ajudar uns aos outros.”
3. O arrependimento e a transformação de Pinóquio
.“Nunca é tarde para a gente estudar e se instruir, não se esqueça disso.”
“Os meninos que fogem do estudo e viram as costas para os livros, a escola e os professores para passar a vida só brincando e se divertindo, mais dia, menos dia sofrem uma desgraça!… Eu sei disso por experiência própria… e posso lhe dizer! Se você seguir nesse caminho, um dia também vai chorar como eu estou chorando agora… mas aí já será tarde!…”
“Bem feito para mim!… Infelizmente, é bem feito para mim! Teimei em ser malandro, vagabundo… teimei em dar ouvidos às más companhias, e por isso as desgraças me perseguem. Se eu tivesse me comportado como um bom menino, como tantos por aí; se tivesse vontade de estudar e trabalhar, se tivesse ficado em casa com meu pobre pai, agora não estaria aqui… Ah, se eu pudesse nascer de novo!”
“Porque os maus meninos, quando se tornam bons, têm o dom de fazer com que o seio de sua família também ganhe um aspecto novo e sorridente.”
