Neste post, destaco o clássico Robinson Crusoé. É um livro cheio de aventuras e com reflexões profundas sobre a natureza humana e a espiritualidade. Infelizmente, muitas adaptações atuais infantilizam a obra. Mas, na verdade, o livro nos estimula a refletir sobre dilemas morais, questões culturais e temas religiosos.
A seguir, apresento informações gerais sobre o livro e explico por que vale a pena saborear essa importante obra da literatura mundial.

SOBRE O LIVRO
O livro foi publicado em 1719 e a autoria é do inglês Daniel Defoe. A obra é tida como o primeiro livro realista da língua inglesa. Antes dele, as narrativas tinham um tom muito fantasioso, mas Defoe inovou ao escrever como se estivesse falando de fatos reais, usando uma linguagem bem objetiva.
O protagonista, naturalmente, é Robinson Crusoé. Quando jovem, numa atitude de rebeldia, ele desconsiderou os conselhos dos pais e partiu em uma arriscada viagem pelo mar. Como resultado, deparou-se com grandes perigos, incluindo piratas. Ele viveu um tempo no Brasil, onde alcançou certa estabilidade financeira, mas resolveu partir em mais uma viagem marítima arriscada. Dessa vez, as consequências foram piores: seu navio naufragou e Robinson foi o único sobrevivente, indo parar em uma ilha deserta onde permaneceu por 28 anos!
A partir daí, o livro foca na grande batalha de Robinson para sobreviver, vítima de fome, sede e nudez. Muitas vezes, ele se sentiu extremamente angustiado, com vontade de desistir de tudo, mas, aos poucos, adquiriu estabilidade emocional. O que contribuiu para isso foi o desenvolvimento de uma espiritualidade que ele nunca tinha tido na vida. Esse relato do crescimento espiritual de Robinson é realmente uma parte muito bonita e comovente do livro. Com novos hábitos, como orações e a leitura regular da Bíblia, ele encontrou forças para não desistir. Mesmo com pouca habilidade manual, ele, com muito esforço, conseguiu fabricar ferramentas, domesticar animais e até construir uma casa, a qual chamou de “fortaleza”.
Depois de anos sozinho, Robinson descobre que a ilha era visitada por indígenas canibais. Corajosamente, ele salva um deles de ser devorado. Ele e esse indígena, a quem atribuiu o nome de Sexta-Feira, tornam-se companheiros leais. Depois de décadas isolados, eles enfim conseguem escapar da ilha. Mas, quando pensamos que a narrativa não terá mais nenhum acontecimento emocionante, o autor nos brinda com mais uma aventura: ele e Sexta-Feira, junto com um grupo de homens, lutam pela sobrevivência contra uma matilha de lobos famintos durante um inverno rigoroso na Europa.
Desde o seu lançamento, o livro faz muito sucesso. Há várias adaptações para o teatro, cinema e televisão. Uma das melhores é o filme O Náufrago (2000), estrelado por Tom Hanks. Várias outras obras literárias de destaque também se inspiraram nesse clássico.

POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO
Gostei por ser um livro de aventuras empolgantes, mas também de reflexões profundas. Temas como espiritualidade, amizade e diferenças culturais são abordados com maestria. A história, além de entreter, nos motiva a ter mais apreço pela vida. Não importa a situação que enfrentemos, é importante buscar ter uma vida digna, dentro do que nossas circunstâncias permitirem.
Outra lição importante é que bens materiais não são as coisas mais valiosas. Antes do naufrágio, Robinson dava muito valor ao dinheiro, prata e ouro. Mas a experiência na ilha o amadureceu: ele reconheceu que valores espirituais e a própria sobrevivência são muito mais importantes do que a riqueza material.
Achei também o livro muito bem escrito. Apesar de ser uma obra do século XVIII, a história é simples de compreender. Mas simplicidade não é sinônimo de superficialidade. As reflexões íntimas de Robinson e a interação dele com o indígena Sexta-Feira são alguns dos vários momentos em que o livro apresenta um rico conteúdo.
Achei muito interessante a forma como o livro ressalta o poder terapêutico da escrita. Para não perder a sanidade e a noção do tempo, Crusoé escreve. O ato de colocar os pensamentos no papel organiza a confusão íntima que ele sentia. Isso mostra que, na solidão, precisamos “conversar” conosco de forma produtiva para não sermos consumidos pela angústia.
Por fim, a narrativa prende a atenção. Desde o começo até o fim, ficamos na expectativa dos acontecimentos seguintes. Claro, alguns leitores contemporâneos, talvez acostumados apenas com leituras muito simplificadas, podem achar o começo do livro um pouco entediante. Mas, se a pessoa tiver paciência e perseverar, vai se acostumar naturalmente com o estilo de escrita e terá, com certeza, um imenso prazer com a leitura.
Assim, recomendo bastante o livro. Trata-se de uma obra com muitas lições importantes para a nossa vida. Vale a pena ler!
TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR
Separei alguns fragmentos da obra que mostram que o livro Robinson Crusoé é muito mais do que um livro de aventuras.
1. Sobre a Felicidade e a Vida Simples (O Conselho Paterno)
Crusoé relembra os conselhos de seu pai sobre o “estado médio” da vida — nem pobreza miserável, nem riqueza excessiva. É interessante notar que essa ideia se baseia diretamente na sabedoria bíblica (Provérbios), onde o sábio rei Salomão pede a Deus o equilíbrio para não cair nos perigos dos extremos. Confira essa passagem em Provérbios 30:8,9.
“Que o sábio (O Rei Salomão, personagem bíblico) testemunhara ser essa a medida exata da verdadeira felicidade, quando pedia que não lhe dessem pobreza nem riquezas. Ordenou-me que observasse […] que as calamidades da vida eram repartidas entre as partes alta e baixa da humanidade, que a situação intermediária sofria menos desastres e não estava exposta a tantas vicissitudes quanto as outras. Tampouco estava sujeita a tamanhas inquietudes e perturbações […] como as que afligem aqueles que, em razão de uma vida corrompida por vícios, luxos e extravagâncias, de um lado, ou por causa do trabalho duro, da falta dos meios necessários […], de outro, atraem sobre si próprios muitos transtornos.”
2. O Peso do Arrependimento e a Luta Contra o Desespero
Antes de encontrar a paz, Robinson sofre com o remorso por ter ignorado sua família e enfrenta momentos de profunda angústia, chegando a questionar a bondade de Deus.
“A influência desastrosa, que me levou primeiro a sair da casa paterna […], impregnava-me o espírito tão poderosamente com essas fantasias a ponto de fazer-me surdo a todo bom conselho, às súplicas e até às ordens de meu pai. […] Abandonei-os a chorar minha loucura e agora estou abandonado a chorar as consequências.”
“Lágrimas rolavam copiosamente pelo meu rosto enquanto fazia tais reflexões, e algumas vezes perguntava a mim mesmo por que a Providência arruinava suas criaturas dessa forma […]. Mas sempre brotava em mim algo que detinha tais pensamentos e me censurava.”
3. O Poder da Gratidão
Uma das maiores lições do livro é aprender a olhar para o que temos, e não para o que nos falta.
“Todos os males devem ser considerados sempre junto com o bem que existe neles e com o mal maior que os acompanha.”
“Refleti como seriam poucas as queixas entre os homens se tivessem a prudência de comparar suas vidas com outras piores e sentir-se agradecidos, em vez de olhar aqueles que se encontram acima.”
“Jamais percebemos a verdadeira realidade de nossa situação até que ela nos seja ilustrada às avessas por circunstâncias contrárias, nem sabemos como dar valor ao que usufruímos, senão pela sua ausência.”
4. Espiritualidade: O Hábito que Transforma
O isolamento transformou um homem bruto em um homem de fé, e o livro destaca como a disciplina de leitura diária foi fundamental para essa mudança.
“Pela manhã, abri a Bíblia, começando atentamente pelo Novo Testamento, e obriguei-me a ler um pouco toda manhã e toda noite. […] Raramente ficava ocioso. Dividia regularmente o tempo de acordo com minhas atividades diárias, tais como, em primeiro lugar, meu dever para com Deus e a leitura das Escrituras, às quais sempre dedicava algum tempo três vezes ao dia.”
“Minha condição agora começava a ser, embora não menos miserável quanto ao modo de vida, bem mais fácil para o espírito. Com os pensamentos voltados a Deus e coisas de natureza superior, através da leitura constante das Escrituras e de orações, sentia um conforto enorme que até então não experimentara.”
5. O Medo e a Natureza Humana
Defoe faz análises psicológicas precisas sobre como o medo pode nos paralisar.
“O medo é dez mil vezes mais aterrador que o próprio perigo quando visível, e a fronteira da ansiedade bem maior que o horror que nos aflige.”
“Como são ridículas as decisões que os homens tomam quando possuídos pelo medo, privando-os de usarem os meios que a razão oferece para confortá-los.”
“Hoje amamos o que amanhã odiamos; buscamos hoje o que amanhã evitamos. […] Os jovens não se envergonham de pecar e, no entanto, têm vergonha de arrepender-se.”
6. O Valor Terapêutico da Escrita
Para organizar o caos mental, Robinson usa a razão e a caneta.
“Comecei a meditar seriamente sobre minha condição e ordenei meus pensamentos por escrito […] para livrar-me de pensar o dia inteiro sobre eles e de atormentar meu espírito. Registrei imparcialmente, como débitos e créditos, os consolos que gozara contra as desgraças sofridas.”
7. Tolerância e Justiça Divina
Um momento de lucidez, onde Crusoé decide não fazer justiça com as próprias mãos, entregando o julgamento a Deus.
“Essas pessoas [os canibais] não eram mais assassinas do que aqueles da cristandade que frequentemente condenam à morte prisioneiros capturados em batalha. […] Convenci-me de que estava equivocado quando tramei estratégias sangrentas para destruir criaturas inocentes.”
“Eu era obrigado a deixá-los à justiça de Deus, que é o governador das nações e não só pune com castigos adequados toda espécie de crimes como também condena publicamente aqueles que hajam cometido ofensas.”
