São Bernardo é um dos grandes clássicos da literatura brasileira. A história desse livro está bem relacionada com a passagem bíblica que diz que “o amor ao dinheiro é raiz de todo tipo de coisas prejudiciais” e que aqueles que se empenham por esse amor “causam a si mesmos muitos sofrimentos” (1 Timóteo 6:9,10). Neste post, apresento informações gerais sobre a obra, explico por que a recomendo e comento pontos marcantes da história.
SOBRE O LIVRO
Publicado em 1934, “São Bernardo” pertence ao movimento literário que os estudiosos chamam de segunda fase do Modernismo. O foco do livro é a análise da natureza humana e as consequências da ambição.
O escritor, Graciliano Ramos, tornou-se famoso por suas histórias cheias de significado e crítica social. Seu estilo era marcado pela concisão, ou seja, ele era direto, objetivo e conseguia dizer muito usando poucas palavras.

Agora, vamos ao enredo. A história gira em torno de Paulo Honório, que no início da narrativa era um simples trabalhador rural. Ele tinha uma grande ambição: tornar-se proprietário da fazenda São Bernardo, na qual havia trabalhado. Obter a fazenda tornou-se uma obsessão em sua vida e, para atingir esse objetivo, ele usou várias trapaças e até de violência.
Honório tornou-se inescrupuloso e brutal. Tudo o que ele fazia, inclusive os relacionamentos que cultivava, visava ao lucro e a interesses pessoais. Nessa ambição desmedida, ele se desumanizou.
Mesmo sendo semianalfabeto, ele finalmente adquiriu a fazenda. Com muito esforço e mais trapaças, a propriedade, que antes estava abandonada, tornou-se produtiva e lucrativa. Nesse ponto da história, já com um patrimônio considerável, ele pensou: “Preciso de um herdeiro!”. Começou, então, a buscar uma esposa.
A escolhida foi Madalena, uma professora sensível e com bom nível cultural. Madalena, uma figura oposta a Honório, importava-se com as pessoas e era muito mais humana. Essa diferença de personalidades gerou muitos conflitos no casamento.
O desfecho da história é construído com maestria, e nos motiva a reavaliar nossas prioridades na vida.
POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO
O livro é relativamente curto, com cerca de 200 páginas em algumas edições, mas é grande na importância do seu conteúdo. O que deve ser prioridade em nossa vida? Como encarar a família e os amigos? Essas e outras questões profundas são abordadas na obra.
Achei o livro bem escrito também. A linguagem é objetiva e os personagens são bem caracterizados. E, principalmente, a história é extremamente realista. Os conflitos entre Paulo Honório, um homem bruto e materialista, e Madalena, uma mulher sensível e cheia de compaixão — mas que se descontrolou emocionalmente em diversos momentos —, podem acontecer em nossa própria família, se não tomarmos cuidado.
Uma ressalva: Graciliano Ramos usa uma linguagem que era muito fácil de ser compreendida pelos leitores de sua época (como dito acima, o livro foi publicado em 1934). Os leitores atuais podem ter dificuldade de entender, por exemplo, as gírias e os regionalismos presentes no livro. Mas, à medida que a pessoa avança na leitura, ela se acostuma com o estilo de escrita e a compreensão vai ficando cada vez mais fácil. E a história em si prende atenção. O leitor fica na expectativa do desenrolar da história. Vale a pena, então, ter paciência e não desistir da leitura caso ela pareça desafiadora no início.
O final do livro é impactante. A história é toda narrada em primeira pessoa, pois o próprio Paulo Honório resolve se tornar escritor para contar a história de sua vida. E suas palavras finais, as de um homem solitário, desiludido e profundamente arrependido das escolhas que fez e do mal que causou aos outros, inclusive à sua própria esposa, emocionam.
Recomendo, portanto, a leitura de São Bernardo.
TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR
A princípio o capital (ou seja, o dinheiro) se desviava de mim, e persegui-o sem descanso, viajando pelo sertão, negociando com redes, gado, imagens, rosários, miudezas, ganhando aqui, perdendo ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando operações embrulhadíssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações comerciais de armas engatilhadas.
Naquele segundo ano houve dificuldades medonhas. Plantei mamona e algodão, mas a safra foi ruim, os preços baixos, vivi meses aperreado, vendendo macacos e fazendo das fraquezas forças para não ir ao fundo. Trabalhava danadamente, dormindo pouco, levantando-me às quatro da manhã, passando dias ao sol, à chuva, de facão, pistola e cartucheira, comendo nas horas de descanso um pedaço de bacalhau assado e um punhado de farinha.
A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las.
Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma ideia que me veio sem que nenhum rabo de saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar. […] Tentei fantasiar uma criatura alta, sadia, com trinta anos, cabelos pretos — mas parei aí. Sou incapaz de imaginação, e as coisas boas que mencionei vinham destacadas, nunca se juntando para formar um ser completo.
A gente se acostuma com o que vê. E eu, desde que me entendo, vejo eleitores e urnas. Às vezes suprimem os eleitores e as urnas: bastam livros. Mas é bom um cidadão pensar que tem influência no governo, embora não tenha nenhuma. Lá na fazenda o trabalhador mais desgraçado está convencido de que, se deixar a peroba, o serviço emperra. Eu cultivo a ilusão. E todos se interessam.
Em todo o caso suponho que os médicos estudam menos nos livros que abrindo barrigas, cortando vivos e defuntos em experiências. Eu, nas horas vagas, leio apenas observações de homens práticos. E não dou valor demasiado a elas, confio mais em mim que nos outros.
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.
Emoções indefiníveis me agitam — inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.
Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.
Conforme declarei, Madalena possuía um excelente coração. Descobri nela manifestações de ternura que me sensibilizaram. E, como sabem, não sou homem de sensibilidades. É certo que tenho experimentado mudanças nestes dois últimos anos. Mas isto passa.
“O senhor conhece a mulher que possui.” Conhecia nada! Era justamente o que me tirava o apetite. Viver com uma pessoa na mesma casa, comendo na mesma mesa, dormindo na mesma cama, e perceber ao cabo de anos que ela é uma estranha! Meu Deus! Mas se eu ignoro o que há em mim, se esqueci muitos dos meus atos e nem sei o que sentia naqueles meses compridos de tortura!
O que eu dizia era simples, direto, e procurava debalde em minha mulher concisão e clareza. Usar aquele vocabulário, vasto, cheio de ciladas, não me seria possível. E se ela tentava empregar a minha linguagem resumida, matuta, as expressões mais inofensivas e concretas eram para mim semelhantes às cobras: faziam voltas, picavam e tinham significação venenosa.
Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. […] Até hoje, graças a Deus, nunca um médico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma. O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? Sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências, perigos — e nem sequer me resta a ilusão de ter realizado obra proveitosa. O jardim, a horta, o pomar — abandonados; os marrecos-de-pequim — mortos; o algodão, a mamona — secando. E as cercas dos vizinhos, inimigos ferozes, avançam.
Estraguei a minha vida estupidamente. Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos… Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
