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Resenha: Filme E o vento Levou

SOBRE O LIVRO

E o Vento Levou foi lançado em 1936 pela autora norte americana Margaret Mitchell e se tornou uma das obras mais importantes da literatura mundial. A história se passa na época da Guerra Civil Americana (1861-1865) e dos anos de reconstrução que se seguiram. A obra destaca o colapso de uma sociedade que praticava a escravidão de negros (a região sul dos Estados Unidos) e que foi transformada pela guerra mais devastadora da história do país — uma guerra que tirou mais vidas de cidadãos americanos do que qualquer outro conflito, inclusive as sangrentas guerras mundiais do século XX.

No centro da narrativa está Scarlett O’Hara, uma jovem sulista que, no início do livro, leva uma vida de luxo em Tara, a enorme fazenda de sua família. Scarlett, que antes era uma jovem mimada e arrogante, se vê diante da brutalidade da guerra. A guerra destrói sua antiga vida e a obriga a enfrentar a realidade de um mundo que se desmorona ao seu redor.

O romance dá um grande destaque ao relacionamento complexo entre Scarlett e Rhett Butler. Assim como Scarlett, Rhett Buttler era egoísta e ambicioso. Seu relacionamento com Scarlett é repleto de conflitos, paixões intensas e decepções e é tido como um dos relacionamentos amorosos mais famosos e conturbados da literatura.

E o Vento Levou é muito mais do que uma história de amor ou de guerra; é uma obra épica que aborda a luta pela sobrevivência e as contradições de uma época turbulenta. Ao mesmo tempo, o livro revela as fragilidades e os preconceitos de uma sociedade que estava à beira do colapso.

A obra foi adaptada para o cinema em 1939. Essa adaptação se tornou um dos filmes mais premiados da história. Por exemplo, ganhou 10 prêmios no Oscar, incluindo o de Melhor Filme. Em breve, farei um post sobre o memorável filme E o Vento Levou.

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POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO

Ler E o Vento Levou foi realmente uma ótima experiência para mim. Apesar de ser um livro longo, com mais de mil páginas, a leitura não é cansativa. Muito pelo contrário, flui muito bem. A história tem de tudo um pouco: aventura, romance, drama e ação, o que torna a narrativa envolvente do começo ao fim.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o seu contexto histórico. A Guerra Civil Americana foi um dos momentos mais importantes da história dos Estados Unidos e ajudou a moldar o país como ele é hoje. Além de definir o futuro da nação, o conflito teve um impacto que se estendeu para além das fronteiras americanas, já que os Estados Unidos se tornaram, pouco tempo depois desse conflito, uma superpotência mundial. O livro explica de forma muito realista os motivos da guerra, as batalhas e as dificuldades que vieram depois. Diferente de muitos romances do século XIX, que retratavam as guerras de uma forma romantizada, fantasiosa, E o Vento Levou mostra o lado sombrio dos conflitos: a destruição, a fome e o sofrimento das pessoas. Isso me fez refletir sobre o impacto de uma guerra na vida real.

Outro ponto forte do livro são os personagens. Scarlett e Rhett, por exemplo, são inesquecíveis, pois são personagens cheios de defeitos e qualidades, o que os torna muito reais. Além deles, personagens como Ashley, Melanie e Ellen (mãe de Scarlett) trazem reflexões sobre valores como lealdade, bondade e força de caráter.

Achei muito interessante conhecer melhor a cultura do Sul dos Estados Unidos daquela época. O livro mostra como os grandes fazendeiros do Sul resistiram às mudanças e como a escravidão estava no centro do conflito. Com a guerra, essa sociedade mudou completamente, e muitas das tradições do Sul desapareceram. O título do livro reflete bem isso: os ventos da guerra levaram não apenas um modo de vida, mas toda uma era.

O livro também fala sobre mudança de valores. Antes da guerra, certos padrões eram bem rígidos, por exemplo, em relação ao namoro, casamento e comportamento das mulheres. Mas, depois do conflito, muita coisa mudou, e regras que antes eram inquestionáveis começaram a ser deixadas de lado. Essas transformações são muito interessante de acompanhar durante a narrativa.

Além disso, o livro traz reflexões sobre preconceito racial e social, a condição da mulher na sociedade, disputas de poder e as grandes mudanças que podem acontecer ao longo da história, temas que continuam muito atuais. Por isso, E o Vento Levou é uma leitura que vale muito a pena. Com uma história envolvente e cheia de aprendizados, o livro nos faz pensar sobre a vida, a sociedade e como transformações inesperadas podem mudar o mundo de uma hora para outra.

Boa análise do livro, feita pela professora Tatiana Feltrin

TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR

Havia dor e atordoamento em seu rosto, o atordoamento de uma criança mimada que sempre tivera satisfeitos os menores caprichos e que agora, pela primeira vez, estava em contato com as contrariedades da vida.

A vida de Ellen não era fácil, nem feliz, mas ela não esperava que a vida fosse fácil e, se não era feliz, essa era a sina das mulheres. O mundo pertencia aos homens, e ela o aceitava como tal. O homem possuía a propriedade, e a mulher a administrava. O homem levava o crédito pela administração, e a mulher elogiava sua esperteza. O homem berrava como um touro se tivesse um espinho cravado no dedo, e a mulher sufocava os gemidos do parto para não perturbá-lo. Os homens costumavam ter a fala áspera e se embriagar. As mulheres ignoravam os lapsos da linguagem e botavam os bêbados na cama. Os homens eram grosseiros e francos, as mulheres, sempre gentis, graciosas e magnânimas.

Scarlett ergueu o queixo, e seus olhos claros, orlados pelos cílios escuros, brilharam sob o luar. Ellen nunca lhe dissera que desejar e possuir eram duas coisas diferentes, a vida não lhe ensinara que a corrida não era para os apressados.

Não fiquemos com a cabeça tão quente e não façamos guerra. Grande parte da infelicidade do mundo foi causada por guerras. Depois as guerras acabaram e ninguém sabia por que começaram.

Vocês, seus janotas falastrões, me ouçam. Vocês não vão querer lutar. Eu lutei e sei. Fui à Guerra dos Seminole e fui tolo o bastante para ir à Guerra do México também. Nenhum de vocês sabe o que é uma guerra. Vocês acham que se trata de montar um belo cavalo e ter as garotas jogando flores, depois voltar para casa como heróis. Bem, não é assim. Não, senhor! Significa passar fome e pegar sarampo e pneumonia de dormir na umidade. E, se não for sarampo e pneumonia, são as tripas. Sim, senhor, o que uma guerra não faz às tripas de um homem, disenteria e coisas do gênero…

Não temo o perigo, a captura, os ferimentos, nem mesmo a morte, se ela tiver de vir. O que realmente me amedronta é que, quando esta guerra acabar, nunca mais consigamos voltar aos velhos tempos. E meu lugar é lá, nesses velhos tempos. Não tenho lugar neste presente louco de matança, e temo que não vá me adaptar a qualquer futuro, por mais que tente. Somos parecidos, Melanie, amamos as mesmas coisas tranquilas, e eu enxerguei diante de nós uma grande extensão de anos rotineiros durante os quais fôssemos ler, ouvir música e sonhar. […] Mas não isto! Nunca isto! Que algo assim pudesse acontecer a todos nós, esta destruição da vida antiga, esta carnificina sangrenta, este ódio!

Mas os homens, com a expectativa de morrer em uma semana ou um mês […] não poderiam passar pelo longo e formal processo de cortejar, prescrito pelas boas maneiras antes da guerra. A probabilidade era que propusessem casamento em três ou quatro meses. E as moças, que bem sabiam que uma dama sempre devia recusar um cavalheiro nas três primeiras propostas, apressaram-se em aceitar na primeira vez.

Ashley me escreveu dizendo que não deveríamos estar combatendo os ianques. E que fomos iludidos a fazê-lo por estadistas e oradores a balbuciar frases de efeito e preconceitos — disse Melly rapidamente. — Ele disse que nada neste mundo valia o que esta guerra irá fazer conosco. Disse que não há nada de glorioso… era só infelicidade e sujeira.

Ela se encolheu, tapando a boca com a mão, sentindo que ia vomitar. Não podia continuar. Já vira homens feridos no hospital e no gramado de tia Pitty após a luta do riacho, mas nada como aquilo. Nunca tinha visto nada como aqueles corpos fedendo, sangrando, fervendo sob o sol inclemente. Era um inferno de dores, cheiros, ruídos e pressa… pressa… pressa! Os ianques estão chegando! Os ianques estão chegando!

Por um tempo infinito, ela ficou ali deitada imóvel, o rosto na terra, sob o sol inclemente, lembrando-se das coisas e das pessoas mortas, de um estilo de vida que se acabara para sempre… e olhando para o duro panorama de um futuro obscuro

No passado, agora morto e acabado, a vida tinha sido tão complexa, tão cheia de problemas intrincados e de complicações. O problema de conquistar o amor de Ashley e de tentar manter uma dúzia de outros admiradores pendentes e infelizes. As pequenas transgressões de conduta a ocultar dos mais velhos, moças ciumentas de quem debochar ou a quem apaziguar, estilos de vestidos e escolha de tecidos, diferentes penteados a experimentar e, ah, tantos, tantos outros assuntos a decidir! Agora a vida era incrivelmente simples. Agora tudo o que importava era ter comida suficiente para não passar fome, roupa para não congelar e um teto acima da cabeça que não tivesse excesso de goteiras.

Crianças negras abandonadas andavam como animais assustados pela cidade até que pessoas brancas de bom coração as recolhessem e levassem para suas cozinhas para criá-las. Negros velhos do campo, abandonados pelos filhos, confusos e tomados pelo pânico na cidade movimentada, sentavam-se no meio-fio e pediam para as senhoras que passavam: “Sinhá, por favô, escrivinha pro meu sinhô no condado Lafayette que tô aqui. Pra ele vim levá esse nêgo véio de vorta pra casa. Pelo amô de Deus, chega dessa liberdade!”

As antigas amigas de sua mãe reuniam-se a seu redor, pois Melanie tinha uma respeitosa deferência pelos idosos que era muito tranquilizante para as anciãs nesses tempos rebeldes em que os jovens pareciam ter se esquecido das boas maneiras.