SOBRE O LIVRO
Escrito por Ray Bradbury e publicado em 1953, Fahrenheit 451 é uma das mais conhecidas distopias literárias do século XX. Mas o que são obras distópicas? São obras que retratam um futuro sombrio e cheio de problemas, onde as coisas deram errado de maneiras drásticas. Nessas obras, a sociedade geralmente vive debaixo de um governo autoritário ou enfrenta crises severas, como falta de liberdade, controle excessivo da vida das pessoas, alta tecnologia usada para oprimir, ou ambientes degradados e perigosos.
O conceito de distopia é relativamente recente: antes de 1914, eram mais comuns as utopias, não as distopias. As obras literárias utópicas têm um tom mais otimista e esperançoso em relação ao futuro. Elas retratam uma sociedade ideal, onde tudo funciona de um modo perfeito ou quase perfeito. Nas histórias ficcionais utópicas, prevalecem a paz e a felicidade entre as pessoas. Mas, com a Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914, esse otimismo foi brutalmente abalado, e o século XX abriu as portas para uma nova era de turbulências, incertezas e pessimismo quanto ao futuro. Nesse cenário, as obras distópicas se tornaram mais populares, e as utópicas perderam espaço. E as distopias seguem mais populares até hoje, inclusive no cinema, como evidenciam filmes como Matrix e O preço do amanhã.
No entanto, Fahrenheit 451 é uma distopia um tanto diferente, pois a opressão intelectual nessa narrativa não começa com um governo autoritário impondo suas regras; em vez disso, é a própria população que, gradualmente, escolhe abandonar a leitura e o pensamento crítico em favor de entretenimentos rápidos e superficiais. Nesse cenário, prevalece a “ditadura da maioria”, onde aqueles que insistem em ler e preservar o conhecimento são vistos como ameaças e perseguidos. Surge então o papel dos “bombeiros”, que, nesse cenário ficcional, são encarregados de destruir livros e perseguir qualquer pessoa que não queira ser alienada. Guy Montag, um desses bombeiros, vive confortavelmente no sistema até que, influenciado por conversas significativas com uma jovem, começa a questionar aquela estrutura social e a valorizar a riqueza de conhecimento contida nos bons livros.

POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO
Uma das coisas que chamaram a minha atenção em Fahrenheit 451 foi sua impressionante atualidade. Embora tenha sido escrito na década de 50, quando a televisão apenas começava a se popularizar, o livro já apontava para um futuro em que a humanidade se tornaria dependente das telas e daria uma ênfase exagerada às diversões. E, de fato, o mundo de hoje parece desenhado para entreter e distrair as pessoas: milhões de aplicativos de celular competem pela nossa atenção, especialmente as redes sociais. É cada vez mais comum ver pessoas alfabetizadas, e muitas com alto nível de escolaridade, trocando a leitura pelo vício nas telas.
Nesse contexto, a “ditadura da maioria” descrita no livro se manifesta nos dias atuais; aqueles que tentam preservar bons hábitos de leitura frequentemente se sentem isolados ou intimidados. Sem força de vontade, podem facilmente se desmotivar diante do bombardeio de imagens e informações da cultura audiovisual. Além disso, vemos um número crescente de pessoas que preferem se isolar no mundo virtual em vez buscar conexões reais e significativas.
Outro aspecto que me agradou foi a ênfase do livro na necessidade de uma vida mais calma e contemplativa. Ele nos lembra que é importante valorizar as belezas da natureza, dar atenção genuína às pessoas e demonstrar empatia. Essas atitudes são fundamentais para manter nossa humanidade em um mundo que está cada vez mais acelerado e superficial.
O livro também exalta os benefícios de ler bons livros, que são ferramentas poderosas para desenvolver o senso crítico e a reflexão. Grandes obras, como a Bíblia, os livros de Shakespeare, Moby Dick, entre outras, são mencionadas ao longo da história, ressaltando o valor da literatura que enriquece a mente e a alma.
Recomendo, portanto, a leitura desse livro. Escrito em uma época em que o vício em telas e a rejeição aos bons livros eram apenas uma previsão, Fahrenheit 451 descreve uma situação de cegueira mental coletiva em que o foco da sociedade está nas distrações superficiais. Hoje, vemos esses fenômenos se desenrolando em escala global. A situação chegou a tal ponto que muitas pessoas de reflexão acreditam que nossa sociedade está à beira do colapso.
Fahrenheit retrata justamente esse caminho rumo à catástrofe, enquanto a maioria permanece distraída com suas telas. Nos tempos atuais, enfrentamos problemas como o aquecimento global, armas nucleares, dentre outros que ameaçam a existência da vida na terra. Contudo, boa parte da humanidade não está atenta a esses perigos, pois se entrega a prazeres momentâneos. O lembrete do livro Fahrenheit 451 de que não devemos seguir automaticamente as atitudes da maioria é, por isso, valioso. Precisamos refletir antes de cada passo e talvez percorrer um caminho diferente.
TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR
Comentários feitos no prefácio do livro (Editora Globo, 2012), pelo jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto
O que aconteceria se os livros fossem incinerados, varridos da face da Terra até o ponto em que o único vestígio de milênios de tradição humanista estivesse alojada na memória de alguns poucos sobreviventes? Qual seria o próximo passo da barbárie? Queimar os próprios homens, para apagar de vez a memória dos livros?
A cidade de Fahrenheit 451, em resumo, é apenas um pouco mais sombria e opressiva do que a maioria das metrópoles contemporâneas, com seu misto de progresso industrial e deterioração do tecido urbano, onde moderníssimos meios de transporte atravessam bairros decadentes.
Bradbury percebe o nascimento de uma forma mais sutil de totalitarismo: a indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético — a moral do senso comum. A ideia de que existe uma ditadura da maioria, que pune o diverso, aparece em vários momentos do romance, quase sempre personificado em Beatty, o chefe dos bombeiros.
As personagens sabem ler, mas só querem ler a programação de suas televisões ou o manual técnico que lhes permitirá ter acesso a um entretenimento que preenche seu vazio.
Trechos da história ficcional contada no livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (Tradução de Manuel da Costa Pinto, Editora Globo, 2012)
Às vezes acho que os motoristas não sabem o que é grama, ou flores, porque nunca param para observá-las
Ah, minha mãe, meu pai e meu tio estão conversando. É como andar a pé, só que bem mais gostoso. Meu tio foi preso uma outra vez, eu lhe contei? Por andar a pé. Ah, nós somos diferentes mesmo.
O psiquiatra quer saber por que eu saio andando pelos bosques, por que observo os pássaros e coleciono borboletas. Algum dia vou mostrar minha coleção para você.
Como é que começou? Como é que entrou nisso? Como escolheu esse trabalho? Como chegou a cogitar em assumir esse emprego? Você não é como os outros. Eu vi alguns; eu sei. Quando eu falo, você olha para mim. Ontem à noite, quando eu disse uma coisa sobre a lua, você olhou para a lua. Os outros nunca fariam isso. Os outros continuariam andando e me deixariam falando sozinha. Ou me ameaçariam. Ninguém tem mais tempo para ninguém. Você é um dos poucos que me toleram. É por isso que acho tão estranho você ser bombeiro. É que, de algum modo, não combina com você.
Mas todos que conheço estão gritando ou dançando por aí como loucos ou batendo uns nos outros. Você já notou como as pessoas se machucam entre si hoje em dia? Às vezes eu sou muito velha. Tenho medo de crianças da minha idade. Elas se matam entre si. Será que sempre foi assim? Meu tio diz que não. Só no ano passado, seis de meus amigos foram mortos a tiros. Dez morreram em acidentes de carro. Tenho medo deles e eles não gostam de mim porque tenho medo. Meu tio diz que seu avô se lembrava de quando as crianças não se matavam umas às outras.
Antigamente, os livros atraíam algumas pessoas, aqui, ali, por toda parte. Elas podiam se dar ao luxo de ser diferentes. O mundo era espaçoso. Entretanto, o mundo se encheu de olhos e cotovelos e bocas. A população duplicou, triplicou, quadruplicou. O cinema e o rádio, as revistas e os livros, tudo isso foi nivelado por baixo, está me acompanhando?
Os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. Vocês, bombeiros, de vez em quando garantem um circo no qual multidões se juntam para ver a bela chama de prédios incendiados, mas, na verdade, é um espetáculo secundário, e dificilmente necessário para manter a ordem. São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes
A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?
Mais esporte para todos, espírito de grupo, diversão, e não se tem de pensar, não é? Organizar, tornar a organizar e superorganizar super-superesportes. Mais ilustrações nos livros. Mais figuras.
“Eu não falo de coisas, senhor”, disse Faber. “Falo do sentido das coisas.
Professor Faber, eu tenho uma pergunta um tanto estranha para lhe fazer. Quantos exemplares da Bíblia restam neste país?
Ninguém mais presta atenção. Não posso falar com as paredes porque elas estão gritando para mim. Não posso falar com minha mulher; ela escuta as paredes. Eu só quero alguém para ouvir o que tenho a dizer. E talvez, se eu falar por tempo suficiente, minhas palavras façam sentido. E quero que você me ensine a entender o que leio.
Você sabe por que livros como este são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que significa a palavra qualidade? Para mim significa textura. Este livro tem poros. Tem feições. Este livro poderia passar pelo microscópio. Você encontraria vida sob a lâmina, emanando em profusão infinita. Quanto mais poros, quanto mais detalhes de vida fielmente gravados por centímetro quadrado você conseguir captar numa folha de papel, mais “literário” você será. Pelo menos, esta é a minha definição. Detalhes reveladores. Detalhes frescos. Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela.
Paciência, Montag. Deixe que a guerra desligue as “famílias”. Nossa civilização está voando aos pedaços. Afaste-se da centrífuga.
Meus filhos ficam na escola nove dias seguidos e depois eles têm um dia de folga. Eu os aguento em casa três dias por mês; não é nada de mais. A gente põe as crianças no “salão” (com os televisores) e liga o interruptor. É como lavar roupa: é só enfiar as roupas sujas na máquina e fechar a tampa.
Compaixão, Montag, compaixão. Não os azucrine nem implique com eles; há bem pouco tempo você também era um deles. Eles estão seguros de que continuarão. Mas não é verdade. Não sabem que tudo isso é um enorme meteoro ardente que produz uma bela chama no espaço, mas que algum dia terá de colidir. Só veem a chama, a bela fogueira, como você viu.
Lembrou-se de uma fazenda que visitara quando era muito novo, uma das raras vezes em que descobriu que em algum lugar por trás dos sete véus da irrealidade, para além das paredes dos salões e do fosso de metal da cidade, as vacas ruminavam capim, os porcos se sentavam em poças quentes ao meio-dia e os cães latiam para ovelhas brancas numa colina.
A diferença entre o homem que apenas apara gramados e um verdadeiro jardineiro está no toque, dizia ele. O aparador de grama podia muito bem não ter estado ali; o jardineiro estará lá durante uma vida inteira.
“Encha seus olhos de admiração”, dizia ele, “viva como se fosse cair morto daqui a dez segundos. Veja o mundo. Ele é mais fantástico do que qualquer sonho que se possa produzir nas fábricas.
E do outro lado do rio, está a árvore da vida que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês; e suas folhas servem para curar as nações.
O sentido é óbvio. Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos.
