
SOBRE O LIVRO
O livro Nação dopamina: por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar , de Anna Lembke, foi publicado em 2021. Lembke é professora de psiquiatria na Universidade de Stanford e diretora do programa de Medicina de Dependência da mesma instituição. A obra destaca em especial o impacto que os excessos da era moderna têm sobre a dopamina, um neurotransmissor fundamental para a sensação de prazer.
O livro é bastante elogiado pelo público em geral e pela crítica especializada por sua clareza e por combinar ciência com histórias reais de pacientes, o que torna o seu conteúdo muito acessível e prático para o dia a dia. Nação Dopamina explora como a sociedade contemporânea está cada vez mais dependente de substâncias e comportamentos que aumentam a dopamina, desde o uso excessivo de tecnologia até vícios mais tradicionais, como drogas e jogos. Lembke destaca o perigo desses excessos e oferece estratégias para recuperar o equilíbrio.
Ressaltamos ainda que a obra se tornou um best seller mundial e é frequentemente destacada como um dos melhores livros na categoria de saúde e comportamento humano. Com uma narrativa que mescla ciência, psicologia e histórias pessoais — incluindo a própria luta da autora contra o vício em romances eróticos — Nação Dopamina se tornou uma referência importante para discussões sobre vício, tecnologia e os desafios do autocontrole no mundo moderno.

POR QUE EU GOSTEI DO LIVRO
Um dos aspectos que me fizeram apreciar o livro é o seu embasamento científico. Anna Lembke é muito respeitada na área de medicina de adicção, campo que estuda os vícios. Ao longo do livro, a autora apresenta várias pesquisas, inclusive algumas realizadas por ela mesma, para fundamentar suas afirmações e justificar suas orientações. É fascinante a forma como ela descreve os mecanismos cerebrais que regulam prazer e dor, e como esses mecanismos podem se desregular quando cometemos excessos. Esses excessos podem levar a pessoa a desenvolver vícios e perder o controle sobre sua própria vida.
Outro ponto que me cativou foram as histórias pessoais compartilhadas no livro. Lembke descreve casos de pacientes viciados em pornografia, jogos eletrônicos, drogas, álcool, entre outros, e mostra como esses pacientes, com muito esforço, conseguiram recuperar o controle de suas vidas. Essas histórias são comoventes e tornam o conteúdo acessível, mesmo para quem não é da área de saúde.
Achei muito interessante também a crítica que a autora faz à postura de muitos médicos, que frequentemente se apressam em prescrever medicamentos. Essa pressa, segundo Lembke, muitas vezes piora a situação do paciente. Medicamentos podem trazer benefícios a curto prazo, mas, a médio e longo prazo, podem agravar comportamentos compulsivos. A autora destaca a importância da conscientização pessoal e das mudanças de rotina como fatores essenciais para superar o vício. Embora medicamentos possam ser necessários em alguns casos, o que realmente faz diferença é o amor do paciente pela sua própria vida e seu esforço para mudar.
Por fim, gostei da forma didática como a autora apresenta conceitos complexos de psiquiatria e psicologia. Esses conceitos são explicados de forma simples, com ilustrações que facilitam o entendimento. Em suma, Nação Dopamina é uma leitura rica em análises científicas, acessível e emocionalmente envolvente. Recomendo muito a leitura!

TRECHOS DO LIVRO PARA SABOREAR
- “Este livro oferece soluções práticas para lidar com o consumo compulsivo desenfreado num mundo onde o consumo tornou-se o motivo abrangente da nossa vida.”
- “Em resumo, tornei-me uma leitora inveterada de romances estereotipados do gênero erótico. Assim que terminava um e-book, passava para o próximo: lia em vez de socializar, lia em vez de cozinhar, lia em vez de dormir, lia em vez de prestar atenção no meu marido e nos meus filhos.”
- “Adicção é o consumo contínuo e compulsivo de uma substância ou um comportamento (jogos, videogame, sexo), apesar do mal que fazem para a pessoa e para os outros.”
- “Além disso, a própria tecnologia é adictiva, com suas luzes pulsantes, seu estardalhaço musical, seu conteúdo ilimitado e a promessa, com uma participação contínua, de recompensas cada vez maiores.”
- “No mundo, 70% das mortes são atribuídas a fatores de risco comportamentais modificáveis, como fumar, inatividade física e dieta. Atualmente, há mais pessoas obesas no mundo do que abaixo do peso, com exceção de algumas regiões da África e partes da Ásia.”
- “O hiperconsumo compulsivo é um risco não apenas à nossa vida, mas à vida do planeta. Os recursos naturais estão diminuindo rapidamente.”
- “Em uma de nossas sessões, Kevin compartilhou sua filosofia de vida. Devo admitir que fiquei horrorizada. – Faço o que quero, quando quero. Se quero ficar na cama, fico na cama. Se quero jogar videogames, jogo videogames. Se quero cheirar cocaína, mando uma mensagem para meu fornecedor, ele me entrega e cheiro cocaína. Se quero fazer sexo, entro online, descubro alguém, encontro a pessoa e faço sexo. – Como isso está funcionando para você, Kevin? – perguntei. – Não muito bem. – Só por um momento, ele pareceu envergonhado.”
- “Atualmente, mais de um a cada quatro americanos adultos, e mais de uma em cada vinte crianças, ingere medicamento psiquiátrico diariamente.”
- “Perdemos a capacidade de tolerar até formas menores de desconforto. Constantemente, procuramos nos distrair do momento presente, nos entreter.”
- “Os americanos já não conversam uns com os outros, eles entretêm uns aos outros.” (Neil Postman, citado no livro)
- “Minha paciente Sophie, uma estudante de Stanford vinda da Coreia do Sul, me procurou em busca de ajuda para depressão e ansiedade. Entre as várias coisas sobre as quais conversamos, ela contou que passa a maior parte do tempo em que fica acordada ligada em algum tipo de dispositivo: no Instagram, no YouTube, escutando podcasts e playlists. Numa das nossas sessões, sugeri que ela tentasse ir a pé para a aula sem escutar nada, só deixando seus próprios pensamentos virem à tona. Essa seria uma maneira de a jovem se familiarizar com ela mesma. Toda essa distração com dispositivos pode estar contribuindo para a depressão e a ansiedade. É muito exaustivo se evitar o tempo todo. A experiência de vivenciar a si mesma pode abrir um caminho para novos pensamentos e sensações e ajudá-la a se sentir mais conectada consigo mesma, com os outros e com o mundo.”
- “Ao longo dos anos, tenho visto um paradoxo semelhante em muitos dos meus pacientes: eles usam drogas, prescritas ou não, para compensar uma falta básica de autocuidado, depois atribuem os custos a uma doença mental, implicando, assim, na necessidade de mais drogas. Desta maneira, venenos passam a ser vitaminas.”
- “O paradoxo é que o hedonismo, a busca pelo prazer por si só, leva à anedonia, a incapacidade de desfrutar qualquer tipo de prazer.”
- “Os dendritos, prolongamentos dos neurônios, tornam-se mais compridos e numerosos em resposta a recompensas de alta dopamina. É por isso que drogas como a cocaína podem alterar o cérebro para sempre, de acordo com pesquisas científicas. No entanto, é possível se desviar de áreas cerebrais danificadas e descobrir novos caminhos sinápticos para criar comportamentos saudáveis.”
- “A ciência nos ensina que todo prazer exige um preço, e o sofrimento que se segue dura mais tempo e é mais intenso do que o prazer do qual ele se originou. Com exposição prolongada e repetitiva a estímulos prazerosos, nossa capacidade de tolerância à dor diminui, e nosso limite para experienciar prazer aumenta. O efeito bruto é que agora precisamos de mais recompensa para sentir prazer e suportamos menos danos para sentir dor.”
- “Quando estamos consumindo recompensas de alta dopamina, perdemos a capacidade de extrair alegria de prazeres comuns.”
- “Como as drogas digitais, tais como os smartphones, passaram a se integrar a tantos aspectos da nossa vida, imaginar como moderar seu consumo, para nós mesmos e para nossos filhos, tem se tornado uma questão de urgência.”
- “Monitorar quanto tempo passamos consumindo determinada coisa (por exemplo, cronometrar o uso do smartphone) é uma maneira de ficar atento e, assim, diminuir o consumo.”
- “No atual ecossistema rico em dopamina, todos nós nos tornamos prontos para uma gratificação imediata. Queremos comprar alguma coisa, e no dia seguinte ela aparece à nossa porta. Queremos saber alguma coisa, e no segundo seguinte a resposta aparece na nossa tela.”
- “A maioria dos obesos tem uma dependência subjacente à comida, que não é tratada adequadamente apenas com cirurgia. Quando a comida deixa de ser uma opção, muitas pessoas mudam da comida para outra droga, como o álcool.”
- “Pacientes que contam histórias nas quais, na maioria das vezes, são a vítima, não estão bem e permanecem assim. Por outro lado, quando meus pacientes começam a contar histórias que retratam em detalhes sua responsabilidade, sei que estão melhorando.”
- “Enquanto contar a verdade favorece um vínculo humano, o hiperconsumo compulsivo de produtos ricos em dopamina é a antítese desse vínculo. Consumir leva ao isolamento e à indiferença, uma vez que a droga substitui a gratificação obtida no relacionamento com os outros.”
- “Sem a vergonha, a sociedade despencaria no caos. Assim, sentir vergonha por comportamentos transgressivos é adequado e bom.”
- “Uma autoavaliação sincera leva não apenas a um melhor entendimento de nossas próprias deficiências, como também nos permite avaliar e reagir às falhas dos outros com mais objetividade.”
- “Os ganhos de encontrar e manter equilíbrio não são imediatos nem permanentes. Exigem paciência e manutenção. […] Temos que ter fé de que as atitudes de hoje, que parecem não ter impacto no momento presente, estão, de fato, se acumulando em uma direção positiva que nos será revelada em um momento desconhecido, no futuro. Práticas saudáveis acontecem dia a dia.”